Quando Carlo Ancelotti desembarcou no Rio de Janeiro para ser apresentado como o primeiro técnico estrangeiro da Seleção Brasileira em um século, o gesto foi simbólico. O piloto de seu jato particular fez questão de sobrevoar o Cristo Redentor, enquanto Diego Fernandes, empresário responsável por intermediar o acordo, declarou: “Cristo está te abençoando para que você nos traga a sexta estrela”. A cena sintetizava o peso histórico, emocional e quase místico que envolveu a contratação mais inesperada do futebol brasileiro recente.
A decisão de levar Ancelotti ao comando da Seleção não nasceu do acaso. Segundo Fernandes, a ideia surgiu após o empate frustrante do Brasil com a Venezuela, em novembro do ano anterior. Para ele, faltavam identidade, controle e confiança — algo que o treinador italiano, multicampeão europeu e respeitado por jogadores como Vinicius Jr., poderia oferecer. A proposta, no entanto, enfrentou resistência interna e cultural: afinal, o Brasil havia conquistado seus cinco títulos mundiais sob o comando de técnicos nacionais.
Para vencer essas barreiras, Fernandes apostou em uma estratégia cuidadosa e emocional. Sua arma secreta foi Zico. Ídolo máximo do futebol brasileiro e figura reverenciada no país, o ex-camisa 10 ajudou a legitimar o nome de Ancelotti aos olhos da opinião pública e do próprio treinador, com quem dividiu episódios marcantes em campo nos anos 1980. A conexão pessoal abriu caminhos onde argumentos técnicos não bastavam.
Mesmo assim, o desafio era grande. Ancelotti ainda tinha contrato com o Real Madrid e recebia propostas milionárias, inclusive da Arábia Saudita. A disputa exigia algo além de cifras. Foi então que Fernandes decidiu criar um vídeo capaz de traduzir o que o futebol representa no Brasil. As imagens mostravam crianças jogando bola em favelas, torcedores chorando em derrotas históricas, como o vice de 1998 e o traumático 7 a 1 de 2014. Na cena final, jovens olhavam para a câmera e diziam: “Carlo Ancelotti, estamos te esperando”.
O impacto foi imediato. Durante um encontro na casa do treinador, em Madri, Ancelotti assistiu ao vídeo e começou a recontar a história do futebol brasileiro para a esposa. Ali, Fernandes teve certeza de que a decisão estava tomada. A emoção havia superado a lógica fria do mercado.
A reta final da negociação ainda reservou tensão. Um apagão de internet na Espanha e em Portugal atrasou assinaturas e aumentou a ansiedade, mas, em 12 de maio, o contrato com a Confederação Brasileira de Futebol foi finalmente oficializado. Duas semanas depois, Ancelotti e Fernandes desembarcaram no Rio sob expectativa máxima, com torcedores acompanhando o voo em tempo real.
Agora, mais de três décadas após integrar a comissão técnica da Itália na final da Copa de 1994, Ancelotti assume a missão de ir além com o Brasil. Se a sexta estrela vier, a fé continuará presente — mas, desta vez, muitos brasileiros saberão exatamente quem agradecer.
Fonte: Dayli Mail
