A proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de revitalizar a indústria petrolífera da Venezuela envolve um desafio de grandes proporções e investimentos estimados em mais de US$ 100 bilhões ao longo da próxima década. Apesar de o país deter as maiores reservas de petróleo do mundo, o setor enfrenta um cenário de colapso após anos de corrupção, subinvestimento, incêndios, furtos e abandono de infraestrutura.
Atualmente, a Venezuela produz cerca de 1 milhão de barris de petróleo por dia — um número distante do pico histórico de quase 4 milhões de barris diários registrado em 1974. Para retomar patamares próximos aos do passado, especialistas apontam que seriam necessários aportes anuais de aproximadamente US$ 10 bilhões, envolvendo grandes companhias internacionais como Chevron, Exxon Mobil e ConocoPhillips.
Segundo Francisco Monaldi, diretor de política energética para a América Latina no Baker Institute, da Universidade Rice, uma recuperação mais acelerada exigiria ainda mais recursos. O cenário, porém, é complexo. Grande parte da infraestrutura está deteriorada: portos operam com extrema lentidão, oleodutos apresentam vazamentos frequentes, plataformas de perfuração foram saqueadas ou abandonadas, e complexos de refino funcionam de forma intermitente.
Na Bacia do Orinoco, uma das áreas mais estratégicas do país, vazamentos seguem sem controle e equipamentos foram vendidos como sucata no mercado ilegal. Já o complexo de refino de Paraguaná, um dos maiores do mundo, opera abaixo da capacidade devido a falhas técnicas e fechamento de unidades essenciais para o processamento do petróleo pesado venezuelano.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que existe grande interesse potencial de empresas americanas em explorar o petróleo da Venezuela, especialmente por sua importância para refinarias da Costa do Golfo. Ainda assim, analistas alertam que qualquer movimento concreto depende de estabilidade política e de um ambiente institucional confiável.
Para Lino Carrillo, ex-executivo da estatal PDVSA, investidores só considerarão seriamente retornar ao país caso haja mudanças estruturais no sistema político, incluindo um novo Congresso ou Assembleia Nacional. As sanções internacionais seguem em vigor, assim como um bloqueio naval norte-americano, fatores que aumentam o risco e a incerteza.
Hoje, a Chevron é a única grande petroleira americana ainda em operação na Venezuela, respondendo por cerca de 25% da produção nacional, graças a licenças especiais concedidas pelos EUA. Exxon e ConocoPhillips, que já atuaram no país, deixaram a Venezuela após a nacionalização de ativos durante o governo de Hugo Chávez.
Além dos entraves políticos e estruturais, o contexto global também pesa. O mercado internacional vive um momento de excesso de oferta, com o barril de petróleo próximo a mínimas de cinco anos, em torno de US$ 60. Isso reduz o apetite por investimentos de alto risco e retorno incerto.
Ainda assim, analistas afirmam que o tamanho das reservas venezuelanas continua sendo um fator de atração. Caso haja sinais claros de estabilidade e contratos com termos favoráveis, empresas com experiência em ambientes complexos podem reconsiderar sua entrada no país. Para isso, no entanto, será necessário equilibrar riscos políticos, custos elevados e um mercado global pouco favorável — um desafio que torna o plano de Trump ambicioso, longo e longe de garantias imediatas.
Fonte: Bloomberg Línea