O presidente francês Emmanuel Macron afirmou nesta quinta-feira (8) que os Estados Unidos estão “desrespeitando as normas internacionais” e se distanciando de aliados tradicionais, durante seu discurso anual aos embaixadores franceses no Palácio do Eliseu em Paris. A declaração, uma das mais duras até agora contra a política externa americana sob o governo de Donald Trump, ocorre em meio a tensões ampliadas após operações militares dos EUA na Venezuela e ameaças sobre a Groenlândia.
Macron criticou a deterioração das instituições multilaterais e alertou que o mundo parece caminhar para uma lógica de grandes potências, com tentação de divisão global e “agressividade neocolonial”, conceitos que ele rejeita frontalmente. “Os Estados Unidos são uma potência consolidada, mas estão se afastando progressivamente de alguns de seus aliados e rompendo com as normas internacionais que ainda promoviam até recentemente”, disse ele no Palácio do Eliseu.
Contexto internacional e críticas à ordem global
O discurso de Macron ecoa uma preocupação mais ampla na Europa sobre o papel dos EUA no cenário global. Lideranças europeias e analistas têm argumentado que a operação militar que resultou na captura do líder venezuelano Nicolás Maduro, além de ações diplomáticas controversas, representam um enfraquecimento das normas estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial.
Anadolu Ajansı
Apesar de apoiar valores democráticos e elogiar o fim das estruturas autoritárias na Venezuela, Macron e outros líderes europeus — incluindo membros do próprio governo francês — sublinharam que qualquer intervenção deve respeitar o direito internacional e a soberania dos Estados.
União Europeia e reformas multilaterais
No mesmo discurso, o presidente francês defendeu que a União Europeia deve fortalecer seus próprios interesses e regulação, especialmente no campo tecnológico e econômico, em face de pressões externas. Ele afirmou que o bloco precisa consolidar normas que garantam proteção a seus mercados e valores, e acelerar iniciativas para expandir suas preferências comerciais.
Macron também enfatizou a necessidade de uma reforma da governança global. Ele reiterou sua posição em favor de uma transformação do Conselho de Segurança das Nações Unidas para incluir potências emergentes, defendendo, inclusive, a inclusão do Brasil como membro permanente do órgão.
Reações e debates internos na França
Internamente, a postura de Macron gerou debate político. Enquanto alguns setores mantém apoio a uma política realista que preserva a cooperação com os Estados Unidos, outros criticam a posição por supostamente abrir mão de princípios tradicionais da diplomacia francesa e de um comprometimento mais firme com o direito internacional.
A discussão sobre soberania, normas globais e o papel de potências tradicionais e emergentes deve continuar nos próximos meses, à medida que o mundo enfrenta desafios geopolíticos complexos e as instituições multilaterais lutam para manter sua relevância num cenário cada vez mais disputado.
Fonte: O Globo