A visão do futuro da política monetária pelo Presidente do Banco Central Gabriel Galípolo

As decisões do Banco Central, incluindo aquelas tomadas pelo Comitê de Política Monetária (Copom), especialmente a definição da taxa básica de juros, influenciam de maneira decisiva o andamento da economia nacional e direcionam os negócios financeiros e os investimentos empresariais. Para os gestores de instituições financeiras e dirigentes empresariais, as decisões do Copom e as indicações dos rumos das políticas monetárias, creditícias e cambiais são de enorme valia e servem como base para as decisões de investimentos e negócios. Nas atas e comunicações do Banco Central, inclusive do Copom, constam previsões e próximos passos da política de juros, como parte importante na formação de opiniões pelos agentes econômicas para tomar suas decisões.

No fim de 2025, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, deixou subentendido que o órgão deixará de sinalizar os próximos passos da política de juros, no que o jargão do mercado financeiro chama de “setas” ou forward guidance. Nem sempre o Copom faz esse tipo de sinalização em seus comunicados ou atas, especialmente em momentos de maior incerteza, quando o cenário econômico pode mudar rapidamente, mas, ao menos no passado recente, nunca havia tratado publicamente da possibilidade de acabar de vez com as “setas”. Um caso célebre foi o da reunião de maio de 2024, quando cinco diretores votaram por um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic e quatro votaram por um corte de meio ponto. O forward guidance do comunicado da reunião anterior apontava para uma redução maior, e o grupo minoritário entendeu que, para preservar a credibilidade do Copom, era preciso cumprir o prometido; no entanto, a maioria entendeu que as condições haviam mudado e era mais importante demonstrar firmeza no combate à inflação.

O mercado recebeu a declaração de Galípolo com apreensão, principalmente porque a falta de indicações sobre o rumo das políticas sob a responsabilidade do órgão aumenta o grau de incerteza e, por consequência, amplia os riscos na tomada de decisões econômicas do setor privado. Ademais, há uma agravante: neste ano de 2026, o grau de incerteza e de risco já está ampliado por conta da entrada em vigor da parte inicial da reforma tributária e das dúvidas a respeito de implicações e procedimentos ainda não regulados por lei.

Outro aspecto a considerar na eventual decisão do Banco Central de não indicar seus passos futuros é o problema do déficit fiscal primário consolidado, que inclui o resultado das contas da União, estados e municípios. Considerando que o governo Lula vem se caracterizando por gastos excessivos, ausência de austeridade e nenhuma vontade de combater déficits, a expectativa geral é de que as contas consolidadas do setor público sigam deficitárias. Considerando que 2026 é ano de eleições nacionais e estaduais, a crença de que o descontrole nos gastos públicos continuará é geral entre os agentes econômicos. A esse respeito, recorde-se que o déficit primário não considera os juros incidentes sobre a dívida pública. A soma do déficit primário e dos juros da dívida resulta no déficit público nominal, que terá de ser financiado por aumento da dívida do governo, cuja consequência é provocar inflação e elevação da taxa de juros.

Fonte: Gazeta do Povo