Revista Poder

Por que Putin celebra a disputa entre Europa e EUA pela Groenlândia

Imprensa estatal russa elogia planos de Donald Trump e vê crise transatlântica como vantagem estratégica para Moscou

A crescente tensão entre Estados Unidos e União Europeia em torno do futuro da Groenlândia tem sido motivo de comemoração em Moscou. Segundo análise do editor de Rússia da BBC News, Steve Rosenberg, jornais alinhados ao governo russo passaram a elogiar abertamente o desejo do presidente americano Donald Trump de comprar ou até anexar o território autônomo dinamarquês.

Publicamente, Trump tem justificado o interesse estratégico na Groenlândia ao afirmar que a região estaria cercada por ameaças russas e chinesas no Ártico. Em declarações recentes, o presidente citou a presença de destróieres e submarinos russos como argumento para defender que os Estados Unidos assumam o controle da ilha.

O que poderia parecer um movimento hostil a Moscou, no entanto, foi interpretado de forma oposta pelo Kremlin. Em vez de críticas, a reação da imprensa estatal russa tem sido de apoio explícito à iniciativa americana — sobretudo por seu potencial de aprofundar divisões entre Washington e seus aliados europeus.

Apoio aberto da imprensa russa

Em um artigo que chamou atenção pela retórica favorável a Trump, o jornal oficial do governo russo, Rossiyskaya Gazeta, elogiou o plano de anexação e atacou duramente os líderes europeus que se opõem à ideia. Segundo a publicação, a resistência da Dinamarca e de outros países europeus representa “teimosia” e “falsa solidariedade” de aliados tradicionais dos Estados Unidos, como Reino Unido e França.

O texto sugere ainda que Bruxelas torce por um enfraquecimento político de Trump nas eleições legislativas americanas para impedir o que o jornal chama de “o maior negócio da vida” do presidente.

A Groenlândia como símbolo político

Na visão da imprensa russa, a anexação da Groenlândia teria um valor histórico para Trump. O jornal chega a afirmar que, se o território fosse incorporado aos Estados Unidos até 4 de julho de 2026 — data do 250º aniversário da independência americana — Trump entraria para a história como o líder que consolidou a “grandeza” do país.

Com a Groenlândia, os Estados Unidos se tornariam o segundo maior país do mundo em extensão territorial, atrás apenas da Rússia, superando inclusive o Canadá. O feito é comparado, de forma hiperbólica, a marcos históricos como a abolição da escravidão por Abraham Lincoln.

Interesses de Moscou

Para o analista da BBC, o entusiasmo russo não está ligado a simpatia por Trump, mas ao ganho estratégico que uma crise entre EUA e Europa pode gerar. Um conflito diplomático dessa magnitude enfraqueceria a coesão do bloco ocidental, desviaria atenções da guerra na Ucrânia e reduziria a pressão internacional sobre Moscou.

Além disso, ao incentivar Trump a não recuar, a mensagem implícita do Kremlin é clara: qualquer movimento que fragilize a relação transatlântica favorece os interesses russos no tabuleiro geopolítico global.

Assim, enquanto Washington e Bruxelas trocam acusações sobre soberania e segurança no Ártico, Vladimir Putin observa o embate com satisfação — não pelo destino da Groenlândia em si, mas pelo impacto que a disputa pode causar no equilíbrio de poder entre seus adversários.

 

Fonte: Globo

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