Revista Poder

Venda do TikTok nos EUA expõe disputa global por dados e poder digital

Operação liderada por empresas americanas reacende debate sobre segurança nacional, regulação e soberania tecnológica

Crédito: CC/Unsplash

A venda da operação do TikTok nos Estados Unidos para um grupo liderado pela Oracle caminha para ser concluída nesta quinta-feira (22) e marca um dos episódios mais sensíveis da disputa geopolítica em torno de dados e plataformas digitais. Avaliada em cerca de US$ 14 bilhões, a transação ocorre sob forte pressão do governo norte-americano e reacende o debate sobre segurança nacional, soberania digital e liberdade de expressão.

Controle de dados no centro da disputa

Com o acordo, o poder de decisão e o armazenamento dos dados de usuários americanos deixam de ficar sob controle da chinesa ByteDance, que manterá apenas 20% de participação. A gestão dos dados passa a ser feita por empresas alinhadas aos interesses do governo dos EUA, como a própria Oracle e o fundo MGX, ligado à família real dos Emirados Árabes Unidos. Hoje, o TikTok é a quarta maior rede social do país, com cerca de 170 milhões de usuários.

Pressão política e paradoxos

A operação remete ao primeiro mandato de Donald Trump e voltou ao centro do debate durante sua campanha de retorno à Casa Branca. Para especialistas, a venda expõe um paradoxo: ao mesmo tempo em que os Estados Unidos defendem o livre mercado, usam o argumento da segurança nacional para forçar a reconfiguração de uma plataforma privada. Segundo a pesquisadora Andressa Michelotti, o movimento afeta tanto a lógica econômica quanto a liberdade de expressão, já que o TikTok esteve sob ameaça de banimento.

O que muda na prática

Ainda há incertezas sobre como a plataforma funcionará após a transição. Entre as hipóteses discutidas pela mídia especializada está a possibilidade de um TikTok “americano”, com aplicativo, arquitetura e políticas próprias, separado da operação global. Essa eventual fragmentação pode impactar design, funcionalidades, moderação de conteúdo e até a experiência dos usuários.

Impactos fora dos EUA

A ByteDance afirma que a venda se limita às operações nos Estados Unidos e não altera o funcionamento da plataforma em outros países, incluindo o Brasil. Especialistas, no entanto, veem o caso como um alerta para o debate regulatório global. Para Rafael Evangelista, da Unicamp, o episódio mostra que plataformas digitais exercem um papel central no debate público e não podem ser tratadas apenas como negócios privados.

Reflexos no Brasil

No cenário brasileiro, não há expectativa de medidas semelhantes. Ainda assim, o caso fortalece discussões sobre governança da internet, concorrência digital e proteção de dados. Paralelamente, a ByteDance avança na expansão de sua infraestrutura local, com a construção de um grande data center no Ceará, reforçando a importância estratégica do país para a operação do TikTok na América Latina.

Em resumo, a venda do TikTok nos EUA vai além de uma transação comercial. Ela revela disputas de poder, interesses geopolíticos e os desafios de regular plataformas que se tornaram centrais para a comunicação e o debate público contemporâneo.

 

Fonte: Agencia Brasil

Sair da versão mobile