A LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton registrou um desempenho abaixo do esperado no fim de 2025 e indicou que 2026 deve seguir desafiador, frustrando as expectativas de investidores que apostavam em uma retomada mais consistente do mercado global de luxo.
O grupo, que já figurou entre os mais resilientes do setor, reportou queda de 3% nas vendas orgânicas do quarto trimestre em sua principal divisão — moda e artigos de couro — que reúne marcas como Louis Vuitton e Christian Dior. O resultado ficou abaixo das projeções do mercado, justamente no período tradicionalmente mais forte do ano.
Ao todo, três das cinco divisões da LVMH não alcançaram as estimativas. Diante do cenário, o CEO Bernard Arnault adotou um tom cauteloso ao falar com investidores e afirmou que o grupo deve limitar gastos em 2026. “Acho que vamos passar pelo inverno”, disse, em tom irônico, ao comentar as perspectivas.
Reação do mercado e pressão sobre o setor
As declarações e os números divulgados tiveram impacto imediato no mercado. As ações da LVMH chegaram a cair 8,2% no início do pregão em Paris, a maior queda intradiária desde abril, puxando para baixo outros papéis do setor de luxo europeu. No acumulado de 12 meses até o fechamento da véspera, os papéis da companhia já recuavam cerca de 21%.
O desempenho reforçou a percepção de que a recuperação do setor de luxo após a pandemia segue instável. A combinação de custo de vida elevado, tarifas, incertezas geopolíticas e aumentos agressivos de preços tem afetado o comportamento dos consumidores, gerando reação negativa em diversas marcas.
“A jornada de volta ao crescimento para o setor, e para a LVMH como seu principal representante, continuará volátil nos próximos trimestres e altamente dependente do cenário externo”, avaliou a analista Chiara Battistini, do JPMorgan.
Pontos de resiliência e desempenho regional
Apesar do cenário desafiador, alguns segmentos mostraram maior resistência. Empresas com foco em joias, como a Richemont — controladora da Cartier —, têm se beneficiado da percepção de que peças de ouro funcionam como reserva de valor em períodos de incerteza.
Embora tenha presença menor nesse segmento, a divisão de relógios e joias da LVMH apresentou desempenho acima do esperado no quarto trimestre, ajudando o grupo a registrar leve crescimento nas vendas totais. A Bulgari teve destaque positivo no período.
Geograficamente, as vendas orgânicas cresceram 1% tanto nos Estados Unidos quanto na região que inclui a China, superando as estimativas dos analistas. Em contrapartida, as quedas de 2% na Europa e de 5% no Japão foram mais acentuadas do que o previsto.
Resultados financeiros e movimentos estratégicos
O lucro operacional recorrente anual da LVMH somou € 17,8 bilhões, queda de 9,3% em relação ao ano anterior, mas ainda acima das expectativas do mercado. Já a divisão de vinhos e destilados registrou o terceiro ano consecutivo de retração, impactada principalmente pelo colapso da demanda por conhaque Hennessy.
No campo estratégico, o grupo investiu € 1 bilhão para elevar sua participação na Loro Piana de 85% para 94% no segundo semestre do ano passado. Além disso, Bernard Arnault afirmou que a participação de sua família no conglomerado deve ultrapassar 50% em 2026.
Os resultados e o tom cauteloso da administração indicam que o próximo ano tende a ser de transição para a LVMH e para o setor de luxo como um todo, ainda em busca de um novo equilíbrio entre preços, demanda e crescimento sustentável.
Fonte: Bloomberg Línea