Argentina revisita trauma de 2001 ao apostar em crédito em dólar como motor de crescimento

Governo Milei propõe liberar empréstimos em moeda americana para empresas e famílias, reacendendo debate sobre riscos cambiais e retomada econômica

Javier Milei || Crédito: Reprodução/Twitter

A proposta do presidente Javier Milei de liberar o crédito em dólar na Argentina reacende um dos debates mais sensíveis da história econômica do país. Desde o colapso da dívida em 2001, o empréstimo em moeda estrangeira para quem não recebe em dólar tornou-se um tabu, associado diretamente à crise que levou à quebra do sistema financeiro e à perda de poupança de milhões de argentinos.

Agora, o governo aposta que esse mesmo mecanismo pode ser transformado em uma alavanca de crescimento. A ideia é permitir que bancos utilizem os dólares hoje parados em suas agências para conceder crédito a tomadores considerados de “alto perfil”, como empresas sólidas e incorporadoras imobiliárias, estimulando investimentos, hipotecas e a retomada da atividade econômica.

O ministro da Economia, Luis Caputo, defende que o sistema financeiro precisa voltar a emprestar para impulsionar uma economia que cresce lentamente. Segundo ele, os bancos teriam acesso a financiamento barato em dólar, o que poderia destravar setores estratégicos e ampliar o crédito de longo prazo — algo raro na Argentina nas últimas décadas.

Apesar do otimismo oficial, os riscos permanecem elevados. O histórico de desvalorizações do peso argentino levanta temores de que famílias e empresas fiquem expostas a dívidas impagáveis caso a moeda volte a sofrer fortes quedas. Economistas alertam que, embora empresas estejam mais preparadas para lidar com esse tipo de risco cambial, o mesmo não vale para a maioria das famílias.

Para reduzir possíveis efeitos adversos, o Banco Central estuda impor salvaguardas, como critérios rigorosos de concessão, exigência de garantias e limites para o volume de depósitos em dólar que poderá ser emprestado. Ainda assim, os detalhes do plano seguem indefinidos.

No pano de fundo da proposta está uma realidade conhecida: os argentinos mantêm uma enorme quantidade de dólares fora do sistema financeiro, estimada em cerca de US$ 170 bilhões. Ao tentar atrair esses recursos de volta aos bancos, o governo busca ampliar o crédito, fortalecer o sistema financeiro e sustentar um novo ciclo de crescimento — mesmo que isso signifique revisitar traumas que marcaram profundamente a história econômica do país.

Fonte: Bloomberg Línea