Com uma trajetória que une herança familiar, repertório multidisciplinar e escolhas autorais, Pedrinho Casarin construiu na Pizza do Quintal uma visão de negócio que vai além do prato. Para a Revista Poder, ele fala sobre memória afetiva, formação fora do óbvio, os desafios de empreender cedo e como transformar tradição em identidade viva, equilibrando propósito, simplicidade e sustentabilidade no competitivo mercado gastronômico de São Paulo.
Você cresceu em meio a negócios familiares ligados à gastronomia. Em que momento percebeu que essa herança não era apenas memória afetiva, mas também um caminho profissional possível?
Durante muito tempo, a gastronomia pra mim era mais memória do que plano. Era cheiro, rotina, família reunida, momentos simples e felizes. Eu só fui entender que aquilo também era um caminho profissional quando percebi que, mesmo longe fisicamente, eu reproduzia esse ambiente em tudo que fazia: criar encontros, receber pessoas, cuidar da experiência. Não foi um clique racional, foi um reconhecimento. Em algum momento eu entendi que aquilo que me formou afetivamente também podia ser traduzido em negócio.
Antes de empreender na Pizza do Quintal, sua formação passou por áreas como marketing, comportamento humano e psicologia investigativa. Como esse repertório influenciou suas decisões como empresário?
Influenciou em tudo. Eu nunca enxerguei negócio apenas como produto e números. Sempre enxerguei como comportamento, relação e leitura de contexto. O marketing me ensinou a estruturar narrativa e posicionamento. O comportamento humano me ensinou a escutar o que não é dito. A psicologia investigativa me trouxe método, observação e cuidado com decisões impulsivas. Empreender, pra mim, virou um exercício constante de entender pessoas antes de pensar em resultados.
A Pizza do Quintal nasceu oficialmente em 2025, mas carrega uma história que vem desde 1995. Quais foram os principais aprendizados até chegar ao formato atual?
O principal aprendizado foi o tempo. Nem tudo que funcionou no passado serve para o presente, e nem tudo que é moderno sustenta o futuro. Aprendi que técnica é importante, mas intenção é fundamental. Que produto bom não sustenta um negócio se a experiência for vazia. Respeitar a origem não é repetir fórmulas, é entender por que elas existiram. A Pizza do Quintal só chegou até aqui porque houve paciência para amadurecer — e para errar muito.
Empreender desde cedo traz vantagens, mas também desafios. Qual foi o momento mais difícil da sua trajetória?
Foi quando “quebrei” pela primeira vez. Precisei aprender a lidar com frustrações, traumas e aceitar que a vida segue. Entendi que insistir não é o mesmo que persistir. Timing não é pressa, é maturidade. Persistência passou a significar ajustar rota, pausar ou encerrar ciclos sem viver isso como fracasso.
Trabalhar com uma tradição familiar de quatro gerações envolve responsabilidade. Como equilibrar respeito à história com inovação?
Eu não tento modernizar a tradição. Tento traduzir e homenagear com a minha linguagem. O respeito está nos fundamentos: qualidade, simplicidade e verdade. Quando se entende a essência, inovar deixa de ser ruptura e passa a ser continuidade consciente. Tradição só pesa quando vira obrigação. Quando vira raiz, sustenta.
Em um mercado competitivo como o de São Paulo, quais escolhas foram determinantes para construir uma marca com identidade própria?
Escolher não agradar todo mundo. Fazer menos, mas fazer bem. Escolher um ritmo humano. A Pizza do Quintal nasceu quase como um contraponto à intensidade da cidade. Identidade não se constrói copiando tendências, mas assumindo posicionamento, mesmo que isso signifique crescer mais devagar.
A Pizza do Quintal defende que “o simples é o novo luxo”. Como esse conceito reflete sua visão de vida e negócio?
Hoje, luxo pra mim é clareza. Comer bem, ser bem tratado, sem excesso. O simples exige mais rigor: menos ingredientes, menos distrações e mais verdade. Nos negócios, isso vira processos claros, relações honestas e decisões pensadas no longo prazo. Ter menos é ter menos problemas e mais paz.
Quais valores herdados da sua família são inegociáveis na condução da pizzaria?
Respeito, palavra e cuidado. Respeito por todos, palavra cumprida mesmo quando não convém, e cuidado com quem trabalha junto e com quem confia na marca. Esses valores não estão na parede, mas estão nas decisões diárias.
Houve momentos em que você precisou recuar ou recomeçar?
Sim, várias vezes — e continuará acontecendo. Recuar mexe com ego e expectativa, mas hoje entendo que pausar também é movimento. Recomeçar não é voltar ao zero, é voltar mais consciente. Faz parte de caminhos autorais.
Pensando em legado, que impacto você deseja deixar?
Quero deixar uma marca lembrada mais pelo que fez sentir do que pelo que vendeu. Um negócio que mostrou que é possível crescer sem se perder. Para minha família, quero deixar liberdade de escolha, não obrigação. Se isso existir, já é um legado poderoso.
