A presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no camarote oficial da Prefeitura do Rio, na Marquês de Sapucaí, não chamou atenção apenas pelo simbolismo carnavalesco — mas principalmente pela companhia. Ao lado do chefe do Executivo estavam empresários e figuras que já estiveram no centro de investigações e escândalos políticos, levantando críticas sobre a mistura entre poder público, interesses privados e imagem institucional.
Entre os convidados estava o empresário José Seripieri Filho, conhecido como “Júnior da Qualicorp”, fundador da Qualicorp e hoje ligado ao controle da operadora Amil. Ele foi preso em 2020 em desdobramento da Operação Lava Jato, sob suspeita de caixa dois eleitoral, sendo solto dias depois. Posteriormente, firmou acordo de delação premiada, citando políticos como o ex-ministro Antonio Palocci e o senador Renan Calheiros.
A proximidade com o presidente não é recente: Seripieri é considerado aliado de Lula e já cedeu aeronave particular para deslocamento do petista em agenda internacional. Sua presença em área institucional, dentro de um espaço público cedido ao cerimonial da Presidência, provocou reações de bastidores e críticas de adversários políticos, que veem sinal de reaproximação entre governo e grandes grupos econômicos da saúde suplementar.
Também marcou presença o banqueiro André Esteves, controlador do BTG Pactual. Ele chegou a ser momentaneamente barrado na entrada por estar com identificação de outro camarote — episódio que gerou desconforto e correria na liberação de acesso.
O espaço é oficialmente da Prefeitura do Rio, comandada por Eduardo Paes, que colocou o camarote à disposição do cerimonial presidencial. Na prática, coube ao entorno do presidente definir a lista de convidados — o que transformou a área institucional em um ponto de encontro de ministros, parlamentares e empresários influentes.
O presidente foi homenageado na avenida pela escola de samba Acadêmicos de Niterói, que estreou no Grupo Especial com enredo sobre sua trajetória. O desfile só ocorreu após o Tribunal Superior Eleitoral rejeitar pedidos para barrar a apresentação por suposta propaganda eleitoral antecipada. A Corte entendeu que impedir previamente configuraria censura, mas deixou aberta a possibilidade de punições posteriores caso sejam identificadas irregularidades.
Para críticos, a cena da Sapucaí expôs mais do que festa: revelou a convivência confortável entre governo, grandes empresários e personagens marcados por investigações — tudo sob o guarda-chuva de um espaço público e institucional. Uma imagem que, longe de ser apenas carnavalesca, é essencialmente política.
