Há 26 anos, o Camarote Bar Brahma ocupa um espaço singular no Carnaval paulistano. O que começou como iniciativa voltada ao entretenimento se consolidou, ao longo das décadas, como um território onde cultura, negócios e experiência se encontram.
À frente do projeto, Caire Aoas acompanhou de perto a transformação do Carnaval de São Paulo — de festa popular em crescimento a vitrine estratégica para marcas, turismo e economia criativa. Sob sua gestão, o camarote passou a operar não apenas como palco de shows e encontros, mas como plataforma que movimenta cadeias produtivas, ativa narrativas e dialoga com diferentes gerações.
Nesta conversa com a Revista Poder, ele reflete sobre tradição e inovação, o papel das marcas na construção da experiência cultural e os bastidores de um projeto que ajudou a redefinir o padrão de hospitalidade no Sambódromo do Anhembi.
O Camarote Bar Brahma chega a 26 anos como o maior de São Paulo. Em que momento você percebeu que o projeto havia deixado de ser apenas entretenimento para se tornar uma plataforma de negócios e cultura?
A virada aconteceu quando percebemos que o impacto do CBB não se restringia aos quatro dias de Carnaval. Ele movimenta turismo, ativa cadeias produtivas, gera negócios para marcas e cria narrativas que reverberam o ano inteiro. Quando um projeto passa a influenciar comportamento, agenda cultural e estratégia de marca, ele deixa de ser entretenimento isolado e se torna plataforma. Hoje, o CBB é um ativo cultural e econômico da cidade.
A “República do Pagodinho” é um conceito bastante autoral. Como nasce uma ideia como essa e qual o papel da narrativa na construção da experiência do CBB?
Ela nasce da liberdade criativa que o Carnaval permite e do entendimento de que experiência precisa de narrativa. Não basta montar estrutura, é preciso contar uma história. A “República do Pagodinho” parte de um símbolo forte, que é o Zeca, e constrói um território imaginário onde o samba organiza tudo. A narrativa cria unidade, dá sentido às ativações, à cenografia e ao line-up. Sem narrativa, você tem um evento. Com narrativa, você constrói identidade.
O Carnaval de São Paulo mudou muito nas últimas duas décadas. Como você equilibra tradição e inovação em um projeto que precisa dialogar com diferentes gerações?
Respeitando a raiz e atualizando a forma. Tradição é preservar o DNA do Carnaval, ou seja, o samba, a comunidade, a emoção. Inovação é a maneira como você entrega isso, com tecnologia, hospitalidade, curadoria e integração com outros universos culturais. Quando a essência é clara, você pode evoluir o formato sem perder identidade. É isso que permite dialogar com diferentes gerações.
O Boticário escolheu o CBB para estrear no universo dos camarotes em São Paulo. O que essa entrada representa para o amadurecimento do projeto como território estratégico de marca?
Representa reconhecimento. Quando uma marca do porte de O Boticário escolhe estrear neste território por meio do CBB, isso demonstra confiança na estrutura, na audiência e na capacidade de gerar conexão qualificada. O Carnaval deixou de ser apenas visibilidade; tornou-se ambiente de relacionamento e posicionamento. Essa parceria reforça o CBB como território estratégico para marcas que buscam relevância cultural.
A parceria prevê integração desde o receptivo até o Sambódromo. Como você enxerga o papel das marcas na construção da experiência cultural sem que ela perca autenticidade?
Marca não pode interromper a experiência, mas potencializá-la. Quando entende o contexto cultural e participa da narrativa, ela agrega valor. O segredo está na coerência. A ativação precisa fazer sentido dentro da história que está sendo contada. Quando há alinhamento de propósito, a presença da marca deixa de ser publicidade e passa a ser parte da vivência.
Você fala muito sobre experiência e cultura. Qual foi o momento mais emocionante que já viveu dentro do Camarote Bar Brahma?
São muitos, mas o mais emocionante é perceber a repetição. Pessoas que frequentam o CBB há 20, 25 anos, que trazem filhos, amigos, famílias inteiras. Quando você vê gerações compartilhando aquele espaço, entende que criou algo que ultrapassa o evento. Esse é o momento mais forte.
O Carnaval é memória coletiva. Que memória pessoal sua está diretamente ligada a essa festa?
A memória da comunidade. De frequentar quadras de escola de samba, de ver o Carnaval sendo construído o ano inteiro por pessoas que dedicam a vida a essa festa. Isso muda a perspectiva. Você entende que o Carnaval não são quatro dias, mas um trabalho contínuo de identidade e pertencimento.
Quando você pensa no futuro, o que gostaria que as pessoas dissessem sobre o impacto do CBB na cultura da cidade?
Gostaria que dissessem que o CBB ajudou a elevar o padrão da experiência no Carnaval de São Paulo e mostrou que entretenimento pode ser profissional, estratégico e cultural ao mesmo tempo. Que foi um projeto que respeitou tradição, impulsionou inovação e contribuiu para consolidar São Paulo como potência carnavalesca.
Seu trabalho transita entre bares históricos e grandes eventos. O que conecta tudo isso é negócio ou é paixão?
É paixão estruturada como negócio. Paixão sozinha não sustenta projeto. Negócio sem paixão não cria identidade. O que conecta tudo é a vontade de construir lugares e experiências que tenham significado para as pessoas — e fazer isso de forma profissional, sustentável e estratégica.