Um levantamento divulgado nesta terça-feira (31) aponta que o encarecimento dos alimentos no Brasil vai além de fatores temporários e reflete questões estruturais da economia. A análise indica que, ao longo das últimas duas décadas, os preços da comida cresceram de forma consistente acima da inflação geral, afetando diretamente o poder de compra da população.
De acordo com o estudo, o custo da alimentação acumulou alta muito superior ao índice oficial de preços desde meados dos anos 2000. Enquanto a inflação geral avançou de forma significativa, os alimentos registraram um aumento ainda mais expressivo, consolidando uma tendência que não se reverte facilmente mesmo após períodos de queda pontual.
O pesquisador responsável pela análise destaca que a dinâmica de preços não pode ser explicada apenas por sazonalidade ou eventos isolados, como variações climáticas ou oscilações cambiais. Segundo ele, o comportamento da inflação dos alimentos está ligado a características profundas do modelo econômico brasileiro, que favorecem pressões contínuas sobre os preços.
Um dos pontos centrais do estudo é a diferença entre os tipos de produtos. Alimentos frescos, como frutas, verduras e carnes, foram os que mais encareceram no período analisado. Já os itens ultraprocessados apresentaram menor impacto inflacionário, o que contribui para mudanças nos hábitos de consumo. Com isso, produtos menos saudáveis acabam se tornando mais acessíveis em comparação aos alimentos in natura.
A pesquisa também aponta que o Brasil consolidou nas últimas décadas um perfil fortemente voltado à exportação agrícola. A priorização de commodities como soja, milho e cana-de-açúcar, destinadas ao mercado externo, reduz a oferta de alimentos básicos para o consumo interno e aumenta a influência dos preços internacionais sobre o mercado doméstico.
Outro fator relevante é o custo crescente dos insumos agrícolas. Fertilizantes, defensivos e maquinário tiveram aumentos expressivos ao longo dos anos, impactando tanto grandes produtores quanto pequenos agricultores. Esse encarecimento tende a ser repassado ao consumidor final, ampliando a pressão sobre os preços dos alimentos.
A concentração da cadeia produtiva também aparece como elemento determinante. O estudo aponta que poucos grupos econômicos dominam segmentos estratégicos, como sementes, pesticidas e indústria alimentícia, o que reduz a concorrência e contribui para a manutenção de preços elevados.
Além disso, o levantamento chama atenção para um fenômeno menos visível. Em alguns casos, produtos mantêm o mesmo preço, mas passam por alterações na composição, com substituição de ingredientes por versões mais baratas. Essa prática reduz a qualidade sem alterar o valor nominal, criando uma percepção distorcida da inflação real.
Diante desse cenário, o estudo sugere medidas para enfrentar o problema, como o fortalecimento da produção voltada ao mercado interno, a ampliação do acesso à terra, o incentivo a economias locais e o reforço de estruturas públicas de abastecimento. A avaliação é que o preço dos alimentos não depende apenas de fatores econômicos, mas também de decisões políticas que moldam o modelo de desenvolvimento do país.