O avanço no uso de medicamentos à base de tirzepatida acendeu um alerta regulatório no país. Dados recentes da Anvisa mostram que, em um intervalo de seis meses, o Brasil importou volume suficiente de insumos para produzir cerca de 25 milhões de doses da substância em farmácias de manipulação.
O crescimento expressivo da produção está diretamente ligado à ampliação da demanda por medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, utilizados tanto no controle do diabetes quanto na perda de peso. Nesse cenário, a forma magistral, em que os produtos são preparados sob demanda, ganhou espaço no mercado nacional.
Segundo a agência, a quantidade de insumos farmacêuticos ativos adquirida entre o fim de 2025 e abril de 2026 ultrapassa 130 quilos. Parte desse volume já seria suficiente para milhões de aplicações em dosagens usuais, o que evidencia a rápida expansão desse tipo de produto no país.
Diante desse crescimento, a Anvisa intensificou ações de fiscalização em farmácias de manipulação e identificou uma série de irregularidades. Entre os problemas encontrados estão falhas em condições de esterilidade, riscos de contaminação, transporte inadequado e uso de matérias-primas sem controle de qualidade ou de origem não comprovada.
A agência também apontou casos de produtos sem registro sanitário e até suspeitas de falsificação, o que eleva o nível de preocupação sobre a segurança dos pacientes.
Outro fator que contribui para o endurecimento das regras é o aumento de notificações de efeitos adversos. Há registros de complicações graves associadas ao uso dessas substâncias, incluindo episódios de pancreatite. Parte dos casos está relacionada ao uso fora das indicações aprovadas, prática conhecida como off-label.
Diante desse cenário, a Anvisa trabalha na revisão das normas que regulam a manipulação desse tipo de medicamento. A expectativa é estabelecer critérios mais rigorosos para produção, controle e monitoramento, além de aprimorar os mecanismos de farmacovigilância.
A nova abordagem deve incluir acompanhamento mais próximo de eventos adversos em hospitais e serviços de emergência, com o objetivo de identificar riscos de forma mais ágil.
Para especialistas, o desafio será equilibrar o acesso a tratamentos inovadores com a garantia de segurança sanitária. O aumento da oferta, impulsionado pela demanda crescente, exige um controle mais preciso sobre a qualidade dos produtos disponíveis no mercado.