Após mais de uma década liderando projetos de branding para uma marca de mobiliário de alto padrão, Bruna Horn decidiu interromper a rotina profissional para investir em uma nova etapa de formação e autoconhecimento. A experiência no Instituto Marangoni, em Milão, marcou uma transformação profunda em sua forma de criar, pensar e enxergar o design. Em conversa com a Revista Poder, a designer fala sobre a reabertura do estúdio, a participação na Milano Design Week, o reconhecimento do design brasileiro no exterior e os próximos passos de sua trajetória.
Você passou mais de uma década liderando o branding de uma marca de mobiliário de alto padrão. O que te motivou a pausar a carreira e voltar a estudar?
Eu percebi que ainda há muito para crescer e estava transbordando de criatividade e ideias que já não podiam mais ser contidas. Sentia uma inquietação criativa impossível de ignorar.
Minhas ideias precisavam de mais espaço, mais liberdade, mais expressão e mais autoria.
Queria ir mais longe, alcançar novos patamares, causar impacto e apoiar outras marcas e talentos. Existia um desejo muito forte de encontrar minha própria voz, de criar com independência e transformar minha visão em algo ainda mais autoral e significativo.
Voltar a estudar foi quase um gesto intuitivo. Eu queria expandir meu olhar, provocar novas conversas, explorar territórios diferentes.
Como a experiência no Instituto Marangoni impactou sua forma de criar hoje?
Morar em Milão e passar um período no Marangoni realinharam a forma como eu enxergo o design e, consequentemente, a vida. Minha mente foi expandida de uma forma surpreendente. Sinto como se eu tivesse sido esticada igual a uma funda e agora estivesse prestes a ser “catapultada” para onde sempre quis estar.
Não existe uma regra para o processo criativo, mas quando você está em um lugar de paz consigo mesmo, a criatividade flui de todos os lados e tudo vira inspiração.
Após esse período, você reabriu seu estúdio. O que mudou na sua prática criativa?
Absolutamente tudo. Minha forma de pensar, de agir, de trabalhar e até mesmo de lidar com pressão e prazos.
Quando reabri o estúdio, voltei com um olhar completamente diferente. Antes, eu criava muito a partir da estratégia e da construção de marca. Depois desse período, minha prática se tornou mais intuitiva, mais artística e profundamente conectada à emoção, à cultura e à liberdade.
Passei a enxergar o design como uma experiência sensorial completa, algo capaz de provocar sentimento, memória e desejo. Me permiti trabalhar de forma mais livre, misturando referências, materiais, disciplinas e narrativas de uma maneira muito mais autoral.
Acredito que amadureci criativamente. Hoje, me interesso menos pela perfeição e muito mais por criar algo com alma, personalidade e autenticidade.
Você foi convidada para expor durante a Milano Design Week. O que esse momento representa na sua trajetória?
É um marco gigante, um verdadeiro divisor de águas. Eu brinco que expor na Semana de Design de Milão é igual ser convidado para jogar uma Copa do Mundo.
E ter participado de um projeto como o Piloto Milano, com curadoria do afiadíssimo Ricardo Gaioso, ao lado de grandes nomes que admiro desde o início da minha carreira, é uma grande honra. Ainda estou me beliscando.
Como você enxerga o design brasileiro no cenário internacional hoje?
Vejo que o nosso design ganhou muito espaço e respeito internacional. Percebo que, de certa forma, já somos fonte para que outros bebam. Não apenas os grandes mestres modernistas, mas também novos nomes em ascensão.
Ou seja, ainda há muito para crescer e mostrar mundo afora.
Sua trajetória transita entre branding, direção criativa e design. Como essas áreas se conectam no seu trabalho atual?
Eu transito de uma área para outra de uma forma muito natural e autêntica. Não vejo fronteiras, porque quando você tem uma veia criativa forte, tudo flui em conjunto; uma coisa faz parte da outra.
Para mim, essas disciplinas nunca existiram de forma separada. Branding, direção criativa e design são diferentes linguagens contando a mesma história.
Tudo começa com narrativa, entender a essência de uma marca, sua atmosfera, sua intenção e a emoção que ela quer despertar. O branding constrói identidade e significado. A direção criativa traduz isso em visão e experiência. E o design materializa tudo de forma tangível, seja através de um espaço, um objeto, uma imagem ou uma sensação.
Hoje, meu trabalho é muito mais holístico. Não penso apenas em criar algo bonito, mas em construir universos visuais e emocionais que tenham profundidade, personalidade e conexão cultural.
Quais são suas principais referências hoje?
É difícil citar porque hoje, após um período de intensa transformação em todas as áreas da minha vida, tudo para mim é inspiração. Absolutamente tudo. Seja uma caminhada no parque em Milão — uma nova série de vasos de Murano surgiu assim — ou na praia em Miami, onde moro a maior parte do tempo.
Arte, moda, comportamento e viagens.
Tenho aprendido muito acompanhando o Rick Rubin.
Meu fascínio por neurociência também se tornou uma grande referência para as minhas criações.
O que podemos esperar dos próximos passos do seu estúdio?
Vejo o estúdio caminhando para um território cada vez mais multidisciplinar, autoral e internacional. A coleção Aurora, por exemplo, lançada este ano em Milão, estará disponível na Holanda a partir de junho.
Também estamos fechando representação por meio de galerias na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos.
Novas coleções e edições limitadas estão a caminho. Tenho pesquisado fornecedores em diferentes partes do mundo.
Além disso, fui convidada para colaborar com algumas marcas de mobiliário e design do Brasil, mas ainda não posso revelar por questões contratuais e comerciais.
Acredito que os próximos passos serão menos sobre seguir tendências. Tenho muito interesse em criar universos próprios, sejam espaços, objetos ou histórias que despertem sensação, curiosidade e, acima de tudo, conexão humana.