Henrique Fogaça transforma experiência pessoal em plataforma de acesso à saúde

Em entrevista ao lado do Dr. João Branco, Fogaça aborda os desafios da cannabis medicinal e o impacto da Komunidade

Foto: Divulgação

A cannabis medicinal ainda enfrenta barreiras relacionadas à desinformação, ao preconceito e à burocracia no Brasil. Em meio ao avanço das discussões sobre medicina integrativa, bem-estar e tratamentos personalizados, a Komunidade surge com a proposta de ampliar o acesso a esse tipo de tratamento por meio de tecnologia, educação e acolhimento.

Idealizada pelo chef, empresário e jurado do MasterChef, Henrique Fogaça, a plataforma nasceu de uma experiência pessoal. A busca por alternativas terapêuticas para a filha Olívia, diagnosticada com uma síndrome rara e submetida a crises convulsivas frequentes, levou a família a conhecer os benefícios do canabidiol, que contribuiu para melhorar sua qualidade de vida.

Ao lado dos sócios Gustavo Galvão e Wesley Teixeira, Fogaça transformou essa vivência em uma iniciativa que conecta pacientes, médicos prescritores e conteúdos educativos em um ambiente integrado. A proposta inclui telemedicina, acompanhamento clínico, suporte regulatório e orientação ao longo de toda a jornada do tratamento.

Nesta entrevista à Revista Poder, Henrique Fogaça e o médico Dr. João Branco, integrante da plataforma, falam sobre os desafios culturais em torno da cannabis medicinal, o papel da informação qualificada e os caminhos para democratizar o acesso ao tratamento no Brasil.

Fogaça, você costuma dizer que a Komunidade nasceu antes como inquietação do que como negócio. Em que momento percebeu que sua experiência pessoal precisava virar uma plataforma pública?

A virada de chave aconteceu quando eu olhei para o lado e entendi que o que a minha família estava vivendo não era um caso isolado. Durante todo o tratamento da minha filha Olívia, que nasceu com uma síndrome rara e sofria demais com as convulsões, a gente foi atrás de diversos tratamentos, mas foi na cannabis medicinal que encontramos uma melhora na sua qualidade de vida.

Foi aí que caiu a ficha. Eu percebi que as pessoas enfrentavam um muro de preconceito, desinformação e burocracia para ter acesso a um tratamento que poderia trazer muito alívio. A partir dali, o negócio deixou de ser só uma busca pessoal e virou um propósito de vida, uma missão maior. Eu entendi que precisava usar a minha voz e a minha estrutura para acolher essas pessoas e facilitar esse acesso.

A Komunidade nasceu para isso: abrir portas de forma séria, responsável, sem hipocrisia e direto ao ponto.

Dr. João, existe um ponto em que a resistência à cannabis medicinal deixa de ser médica e passa a ser cultural?

Sem dúvida. Hoje, grande parte da comunidade médica já reconhece o potencial terapêutico da cannabis em diferentes contextos clínicos, sempre com critérios técnicos e acompanhamento adequado. Mas ainda existe um bloqueio cultural muito forte.

Muitas pessoas associam automaticamente cannabis à ilegalidade ou ao uso recreativo, sem entender que estamos falando de medicina, pesquisa, protocolos e qualidade de vida. Em muitos casos, o preconceito chega antes da informação.

Fogaça, você veio de universos tradicionalmente associados à intensidade: cozinha, música, televisão. O que mais te surpreendeu ao entrar no debate sobre saúde e cannabis medicinal?

O que mais me chocou de verdade foi ver a quantidade de famílias que estão passando por situações difíceis sem ter conhecimento e acesso a esses tratamentos.

Quando você entra nesse universo, percebe que o que as pessoas mais precisam, antes de qualquer coisa, é de acolhimento e de informação de verdade. Também me surpreendeu perceber como muitos ainda têm medo de falar sobre o tema, mesmo quando o tratamento já faz parte da rotina delas. Isso mostra o quanto o debate ainda precisa amadurecer no Brasil.

Dr. João, qual é o erro mais comum de quem chega pela primeira vez ao universo da cannabis medicinal?

Achar que existe uma solução universal ou imediata. Cannabis medicinal exige individualização, acompanhamento médico e entendimento do contexto clínico de cada paciente.

Não é um tratamento genérico. Cada organismo responde de uma forma, cada condição exige uma estratégia específica e o acompanhamento contínuo faz toda a diferença no resultado.

Fogaça, a Komunidade fala muito sobre acolhimento. Você acha que o paciente brasileiro ainda se sente julgado quando busca tratamentos alternativos?

Muitas vezes, sim. Principalmente quando falamos de cannabis medicinal. Existe um sentimento de insegurança, quase como se a pessoa precisasse justificar a própria escolha o tempo inteiro.

Por isso, a Komunidade não é só uma plataforma. Ela nasce como um espaço de escuta real, de acolhimento de verdade. A gente queria criar um ambiente seguro, onde pacientes e famílias pudessem chegar, tirar dúvidas e encontrar informações sérias, baseadas em ciência, sem julgamento.

Dr. João, em um cenário de excesso de informação nas redes sociais, o que mais preocupa você hoje?

A banalização. Existe muita promessa milagrosa, muita simplificação e pouca responsabilidade em alguns conteúdos.

Cannabis medicinal não deve ser tratada como tendência de internet. Estamos falando de saúde. Por isso, defendemos informação baseada em evidência científica, acompanhamento profissional e transparência sobre limites, indicações e segurança.

Fogaça, olhando para trás, o que a trajetória da Olívia mudou na sua forma de enxergar saúde e qualidade de vida?

A trajetória da Olívia mudou completamente a minha forma de enxergar saúde, qualidade de vida e até o próprio ritmo do dia a dia. Quando você vive uma situação tão delicada dentro da sua própria casa, suas prioridades mudam inevitavelmente.

A convivência com ela me ensinou muito sobre presença, paciência, cuidado e sobre valorizar pequenas evoluções que, para muita gente, podem passar despercebidas. Ver uma melhora no olhar, numa reação, num sorriso ou numa interação passa a ter um significado gigantesco. Isso muda sua percepção sobre o que realmente importa.

Qualidade de vida envolve dignidade, acolhimento, acesso à informação, tratamento adequado e suporte emocional tanto para o paciente quanto para a família.

A Komunidade nasce dessa experiência com o tratamento da Olívia, mas também da vontade de ajudar outras pessoas a encontrarem caminhos mais seguros, humanos e acessíveis dentro dessa jornada.

Dr. João, qual é o principal desafio para democratizar o acesso à cannabis medicinal no Brasil hoje?

Ainda existem barreiras importantes relacionadas à informação, ao custo, à regulamentação e ao acesso a profissionais capacitados.

Por isso, iniciativas como a Komunidade são importantes. A tecnologia ajuda a aproximar pacientes, médicos e informação qualificada, reduzindo obstáculos que muitas vezes afastam as pessoas do tratamento.