Com uma trajetória que transita entre artes visuais, produção cultural e pesquisa sobre memória, ancestralidade e afeto, Lucrécia Couso construiu uma obra marcada pela experimentação de linguagens e pela observação sensível do cotidiano das grandes cidades, como São Paulo.
Em sua nova exposição individual, Força Maior, apresentada na galeria O Jardim, na Mooca, a artista reúne trabalhos que refletem sobre resistência, amor, herança familiar e as forças que moldam a experiência humana.
Em conversa com a Revista Poder, Lucrécia fala sobre seu processo criativo, a influência de sua história pessoal, o papel dos espaços independentes na cena artística e o legado que espera deixar por meio de sua produção.
Sua produção atravessa fotografia, gravura, pintura, instalação e arte têxtil. Em um momento em que o mercado costuma valorizar especializações, o que te levou a construir uma trajetória tão multidisciplinar?
Eu não entendo a arte contemporânea como uma questão de especialização. Acho que o artista deve circular pela materialidade, pela questão conceitual e espacial que busca para compreender e concretizar sua pesquisa artística.
Eu venho do desenho, da arquitetura e da minha formação em Licenciatura Plena em Artes Plásticas, o que me proporcionou o privilégio de desfrutar dos ateliês e oficinas de gravura, marcenaria, serralheria, cerâmica e fotografia. Isso me contaminou.
Pude experimentar e trazer essa experiência como base de pensamento para o meu fazer. Ainda trago a música como um elemento de composição e processo, adicionando mais uma camada.
Atualmente, o artista não pode ficar trancado em seu ateliê. Ele também precisa ser o agente de divulgação de sua própria obra, precisa saber falar sobre sua construção e promover a própria carreira artística, participando de grupos de estudo e alimentando suas redes sociais.
Por que dar o nome de “Força Maior” para a nova exposição? De qual ou de quais forças estamos falando?
O nome da mostra vem de uma somatória de elementos, partindo da expressão “por motivo de força maior”, que ouvi em uma postagem do querido Zeca Camargo.
Parei para pensar sobre essa expressão que escutei a vida inteira, como se fosse algo “divino”, algo que não podemos compreender ou alcançar, apenas aceitar como uma decisão melhor, que sugere algo além de nossas possibilidades naturais, como se algo ainda maior nos conduzisse para alguma coisa.
Além disso, dentro da minha pesquisa artística, trago a resistência da natureza e dos seres humanos por meio da ancestralidade e da força de sobrevivência, seja pela destruição que causamos ao meio ambiente, seja pela destruição que causamos em nossas relações pessoais, amorosas, políticas e sociais.
Também trago a resistência e a força presentes nos materiais de produção das minhas obras, que dialogam com esse pensamento artístico.
Um dos núcleos da exposição aborda a ancestralidade e a relação com sua mãe, costureira. Como as histórias familiares influenciam suas escolhas artísticas?
Somos feitos de pedaços de terras ancestrais, de costumes, de hábitos, de traços e de genética. Não podemos existir no hoje sem entendermos de onde viemos para conseguirmos estar no amanhã.
Eu, como grande parte da população brasileira, nasci em um lar de avós imigrantes que trouxeram para este país seus sonhos de constituir uma família em uma terra promissora.
Meus avós trabalharam duro e não construíram patrimônio. Meus pais vieram dessas famílias e tiveram que trabalhar muito para continuar o legado.
Sou filha de uma jovem viúva que teve a máquina de costura como seu instrumento de trabalho — um saber ancestral — e, com ela, pôde me educar e me levar até a universidade. A partir daí, passei a gerar meu próprio sustento para concretizar meus estudos.
Até hoje escuto o barulho da tesoura deslizando sobre o tecido na mesa de madeira da sala. Hoje, a tesoura está presente de várias maneiras em minhas obras. Na exposição Força Maior, ela aparece literalmente sobre um Livro de Artista.
Tenho três máquinas de costura em meu ateliê e utilizo outros elementos da costura em minhas obras, como alfinetes, linhas, agulhas, carretéis e moldes de madeira e papel.

“Força Maior” é a primeira exposição individual de uma artista apresentada pela galeria O Jardim. Como você enxerga o papel de espaços independentes, como a galeria, na renovação da cena artística paulistana?
Eu me interesso por todo o circuito da arte, mas tenho um grande interesse pelo circuito independente, periférico, fora das grandes capitais e das paredes convencionais.
Tenho muita admiração por espaços fora do convencional, que disponibilizam espaços “extramuros” — como diz o curador Andrés Hernández — e provocam o artista, tirando-o do conforto do cubo branco e levando-o a enfrentar desafios.
A Galeria O Jardim, além de estar em um bairro mais afastado, possui muitos desses atributos, deixando o artista com total liberdade de ocupação e produção.
O Jardim também funciona como um centro cultural, marcando sua presença na região da Mooca e trazendo para a cidade novas possibilidades de encontros, debates, cursos e exposições.
Esse é um dos propósitos de Malu Mesquita e Renato Negrão: extrapolar a função de uma galeria comercial, manter as relações comerciais necessárias para a sustentabilidade do espaço e dos artistas e contar com uma equipe de profissionais impecáveis, que contribuem para o sucesso de qualquer empreitada.
O que te atraiu no convite da Malu Mesquita e do Renato Negrão, fundadores da galeria, para ocupar o espaço neste momento da sua carreira?
A Malu e o Renato me conheciam como produtora cultural, mas tiveram a curiosidade de visitar meu ateliê.
Percebi, durante a visita, um brilho no olhar e uma troca sincera. Algum tempo depois, recebi o convite para uma exposição individual.
Isso me deixou muito lisonjeada por saber que sou a primeira artista a realizar uma individual na galeria, que completará dois anos em setembro deste ano.
A Galeria O Jardim tem um frescor e um propósito que me interessam. Foi criada com a intensidade de uma sementeira, que tem a expectativa e a delicadeza de ver o fruto se desenvolver e crescer junto, dialogando com artista e curador.
Além disso, abre portas e propõe discussões relevantes sobre arte contemporânea.
Quando pensa no legado da sua obra, o que espera que permaneça: as imagens, os temas que investiga ou as reflexões que provoca em quem entra em contato com seu trabalho?
Espero contaminar os espectadores de alguma forma, assim como sou contaminada diariamente pela arte, seja pela música, cinema, teatro, design, artesanato ou artes visuais.
Algo de nós sempre é encontrado em alguma expressão humana, em seu estado mais natural. Quando nos reconhecemos no outro, algo de divino nos conecta ou reconecta.
Tenho muitos amigos e até desconhecidos que me enviam imagens de corações que passaram a perceber em diversas situações, seja em uma xícara de café que acabaram de tomar, seja em uma nuvem no céu.
Suspiramos quando escutamos uma música, assistimos a um filme ou sentimos o cheiro de um bolo caseiro.
Somos todos interligados por histórias, e nossos fazeres artísticos refletem nossas passagens pela Terra, deixando vestígios.
Espero estar deixando bons vestígios por meio das minhas obras.