Revista Poder

Sucessão em empresas familiares exige governança, preparo e visão de longo prazo

Rodrigo Pastore, CEO do Grupo Pastore, aponta aprendizados para negócios familiares que buscam crescer sem perder identidade

Foto Divulgação

Empresas familiares têm papel central na economia brasileira. Segundo dados do Sebrae e do IBGE, elas representam cerca de 90% dos negócios no país, respondem por aproximadamente 65% do PIB nacional e são responsáveis por cerca de 75% dos empregos. Apesar da relevância, a continuidade ainda é um dos maiores desafios desse modelo de negócio.

Dados de consultorias do setor indicam que apenas 30% das empresas familiares chegam à segunda geração. O índice cai para 12% na terceira e fica abaixo de 3% na quarta. Além disso, um levantamento global da PwC de 2023 aponta que somente 24% dessas companhias possuem um plano de sucessão estruturado e documentado.

Diante desse cenário, a sucessão deixa de ser apenas uma etapa familiar e passa a ocupar um lugar estratégico na agenda empresarial. Para Rodrigo Pastore, CEO do Grupo Pastore, o futuro de uma companhia familiar depende da capacidade de profissionalizar processos, formar lideranças e preservar os valores que deram origem ao negócio.

Há mais de 30 anos, Maurício Pastore fundou a Pastore Turismo e consolidou a empresa como referência em viagens em grupo para o público 50+. Em 2018, Rodrigo ingressou no negócio da família. Após passar por diferentes áreas da operação, liderou a expansão da companhia e a criação do Grupo Pastore, que hoje reúne novas frentes de atuação no setor.

“O erro mais comum é tratar a sucessão como um evento. Na prática, ela precisa ser construída ao longo do tempo, com preparo, vivência dentro do negócio e responsabilidade compartilhada”, afirma Rodrigo.

Separar família e gestão

Em empresas familiares, um dos pontos mais sensíveis está na separação entre relações pessoais e decisões profissionais. Quando não há maturidade emocional, divergências do dia a dia podem ultrapassar o ambiente corporativo e afetar os vínculos familiares.

“Dentro da empresa, existem cobranças, pressão e responsabilidades como em qualquer negócio. O importante é saber discutir como sócios e continuar sendo família fora dali.”

Na prática, essa separação contribui para decisões mais racionais. Além disso, ajuda a preservar tanto a relação familiar quanto a saúde do negócio no longo prazo.

Construir confiança por meio de resultados

Outro aprendizado importante está na forma como a nova geração conquista espaço. Em processos de sucessão, o vínculo familiar não deve ser suficiente para garantir autonomia. A confiança precisa nascer da entrega, da capacidade de execução e do compromisso com o crescimento da empresa.

“Você pode ter ótimas ideias, mas sem o aval e a confiança de quem construiu a empresa, dificilmente consegue implementá-las. A confiança vem quando o resultado aparece.”

Para Rodrigo, a nova liderança deve demonstrar preparo para resolver problemas, assumir responsabilidades reais e gerar valor dentro da operação. Assim, a transição tende a acontecer de forma mais sólida.

Descentralizar sem perder direção

À medida que a empresa cresce, modelos muito centralizados podem limitar a inovação e a agilidade. Em negócios familiares, esse desafio costuma aparecer com mais força durante a passagem de comando entre gerações.

“Os tempos mudam muito rápido. Quem lidera uma empresa precisa ter a mente aberta para ouvir novas ideias, deixar o orgulho de lado e descentralizar decisões.”

Empresas que atravessam gerações com consistência costumam combinar experiência acumulada com capacidade de adaptação. Portanto, a abertura para novas ideias não significa romper com a história da companhia, mas criar condições para que ela continue relevante.

Preservar a autoridade entre os sócios

A relação entre os líderes também influencia diretamente o clima organizacional. Quando há desalinhamento público entre os sócios, a equipe perde clareza e passa a questionar decisões internas.

“Se um sócio toma uma decisão, o outro não pode desautorizar na frente das pessoas. Depois, em particular, os dois conversam, ajustam o processo e alinham o que for necessário.”

Esse cuidado fortalece a confiança da equipe e contribui para um ambiente mais estável. Além disso, reforça a percepção de profissionalismo dentro da empresa.

Preparar o sucessor antes da urgência

Para Rodrigo, um dos erros mais comuns é iniciar o preparo do sucessor apenas quando a transição se torna inevitável. A formação de uma nova liderança exige tempo, vivência prática e conhecimento profundo da operação.

“Crises não criam estrutura; elas apenas revelam o nível de maturidade que a empresa já possui. Quem se organiza antes cresce com mais segurança.”

Esse processo envolve a criação de indicadores, governança e estruturas capazes de dar previsibilidade à tomada de decisão. Também exige que o sucessor participe do dia a dia da empresa, entenda sua cultura e conquiste legitimidade diante da equipe.

No caso das empresas familiares, crescer sem perder identidade passa justamente por esse equilíbrio. É preciso respeitar a história construída pelo fundador, mas também preparar o negócio para novos ciclos. Para Rodrigo Pastore, sucessão bem conduzida não significa substituição imediata, e sim continuidade planejada.

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