Juliana Guerreiro fala sobre legado, criação e o futuro da joalheria autoral

Juliana Guerreiro_Foto: Henri Parv

À frente da direção criativa da Guerreiro, Juliana Guerreiro conduz uma das principais marcas brasileiras de joias autorais. Há 25 anos na marca, imprime um olhar contemporâneo à identidade da Guerreiro, preservando a essência construída ao longo de cinco décadas.

Em um momento de fortalecimento da marca, Juliana busca aprofundar a narrativa da Guerreiro, valorizando o fazer manual, a pesquisa estética e a criação de joias que atravessam o tempo sem renunciar à sua essência. Seu trabalho equilibra tradição e inovação, respeitando o legado da marca ao mesmo tempo em que propõe novos caminhos para sua expressão criativa.

Em conversa com a Revista Poder, Juliana fala sobre seu processo de criação, as referências que alimentam seu repertório, o desafio de dar continuidade ao legado criativo iniciado por seu pai, José Carlos Guerreiro, e sua visão sobre a construção de marcas capazes de permanecer relevantes ao longo dos anos.

Qual é o seu papel atualmente na Guerreiro?

Atualmente, conduzo a direção criativa da Guerreiro e penso na marca como um todo, passando pelo desenvolvimento das joias e pela forma como nos apresentamos. A marca foi criada pelo meu pai, José Carlos Guerreiro, que tem um olhar extremamente autoral e, hoje, preservo essa essência, garantindo a continuidade dessa trajetória.

Na minha direção criativa, busco olhar para o todo: o acabamento, a escolha da pedra, as cores, as formas e os significados de cada joia. Não ignoro tendências, mas também entendo se elas cabem dentro de nossa visão, pois herdei da minha família uma alma criativa e cresci cercada de referências, o que me auxilia nas produções.

Estou à frente de uma marca que não precisa se reinventar a qualquer custo, pois ela já tem uma identidade muito clara. Portanto, meu foco é aprofundar essa identidade, ampliar nossa presença no mercado e criar camadas para que a Guerreiro siga relevante, sem perder a essência que a tornou única.

De onde vêm as suas principais inspirações na criação e no desenvolvimento de novas joias para a marca?

Minhas inspirações vêm da observação e da construção de repertório. Para mim, criar é consequência de um olhar que é alimentado frequentemente. Viajar, visitar exposições, caminhar por cidades diferentes, observar vitrines, texturas, arquiteturas, entre outras formas de arte, me ajudam com o repertório de criação. Além disso, estou sempre revisitando nosso acervo, o que me inspira a criar proporções e produzir peças que já temos em formatos diferentes.

Essas referências servem para alimentar meu olhar, identificar padrões, entender materiais e proporções. Para existir uma coleção, uma campanha ou imagem, existe esse processo de análise contínuo, que é fundamental para a nossa marca.

Como tem sido assumir a liderança criativa da Guerreiro após a trajetória consolidada de seu pai, José Carlos Guerreiro?

É uma responsabilidade e um privilégio enorme, pois meu pai construiu uma linguagem própria, muito reconhecível, a partir de décadas de trabalho, pesquisa e experimentação. Ele desenvolveu técnicas, jeitos de olhar para a joia, uma relação com os componentes do produto final, algo que faz parte da identidade da Guerreiro.

Para mim, assumir a liderança criativa da marca é dar continuidade a uma história viva, que tem um legado muito sólido, mas que não está parada no tempo. Trago a minha bagagem com um novo repertório, referências e outra forma de olhar para a marca, mas a essência continua a mesma: o fazer autoral, a força do trabalho manual e a joia como algo que carrega beleza com significado.

Como você consegue equilibrar tradição e inovação no desenvolvimento de novas coleções da marca?

Para mim, a inovação não está em abandonar a essência, mas em encontrar novas formas de expressá-la, porque ela só faz sentido quando nasce de uma identidade clara. Na Guerreiro, a tradição está em produções manuais, tiragens limitadas, peças únicas e uso de formas orgânicas. O que muda é o olhar sobre o presente: novas proporções, formas de usar as joias, combinações, referências culturais.

A inovação acontece quando conseguimos fazer essa linguagem dialogar com o presente, sem descaracterizar a marca. O equilíbrio está em respeitar o que já existe, entendendo que tradição e legado não são estáticos, mas elementos vivos que continuam evoluindo ao longo do tempo.

Na sua visão, quais características uma marca precisa ter para construir uma identidade forte e duradoura?

Acredito que uma marca precisa ter coerência entre o que ela faz, comunica, entrega e em que acredita. Uma identidade forte não nasce apenas de um bom produto, mas se constrói quando existe uma visão consistente por trás de cada decisão. No caso da Guerreiro, essa visão sempre esteve ligada à autoria, ao trabalho manual, à escolha das matérias-primas e à ideia de que uma joia deve atravessar o tempo.

Também acredito que uma marca duradoura precisa ser verdadeira, principalmente em um mercado que muda frequentemente, e o que fortalece as marcas é justamente saber o que mudar e o que não seguir.

Quais são os seus próximos passos na Guerreiro e suas perspectivas para os próximos anos?

Desejo continuar fortalecendo a identidade da Guerreiro e ampliando a nossa presença no mercado de forma consistente. Quero participar do desenvolvimento de novas coleções, mas também construir uma narrativa ainda mais clara sobre a marca, nossa história, nosso processo criativo e visão de futuro, aproximando as pessoas do nosso universo ao mostrar mais sobre os processos de cada peça.

A Guerreiro é construída com personalidade e respeito ao tempo e aos processos manuais. Para os próximos anos, vejo a marca evoluindo, ganhando novas camadas e dialogando com novas gerações, sem abrir mão daquilo que nos tornou únicos. Nascemos de um olhar autoral e o meu papel é fazer esse olhar continuar vivo.