Revista Poder

Bove diz que votaria em corrupto “desde que cristão” e reacende polêmica sobre fé e política; deputado responde a processo por violência doméstica

Em entrevista, deputado estadual do PL defendeu que a fé cristã pesaria mais que a corrupção na hora de escolher um candidato. A fala reabre discussão sobre a distância entre discurso moral e conduta pessoal do parlamentar

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Não é novidade que políticos recorram a justificativas questionáveis para defender posições difíceis de sustentar. Desta vez, Lucas Bove (PL-SP) usou a fé como argumento.

Em participação no podcast Iron Talks, o deputado estadual disse que, entre dois candidatos corruptos, optaria pelo cristão, com o objetivo declarado de barrar uma vitória de Lula. Na prática, a fala coloca a religião acima da honestidade como critério de escolha eleitoral.

A declaração ganha peso extra por vir de um deputado que costuma se apresentar publicamente como guardião da moral, da família e dos valores cristãos — discurso que vem sendo contestado desde que sua ex-esposa o acusou de agressão física e psicológica.

Atualmente, Bove responde a processo por violência doméstica e por descumprir medidas protetivas concedidas à ex-companheira. O caso já foi levado ao Conselho de Ética da Alesp e segue sendo analisado pela Justiça. O parlamentar nega todas as acusações.

Ao sugerir que um candidato corrupto pode ser aceitável desde que professe a fé cristã, Bove relativiza a corrupção e passa a mensagem de que valores religiosos podem substituir critérios como ética e honestidade no trato com o dinheiro público.

Há, ainda, uma contradição que não passa despercebida: quem usa a fé como bandeira e cobra moralidade dos rivais tende a ser cobrado com a mesma régua. E essa cobrança se torna mais evidente quando o próprio parlamentar enfrenta acusações justamente na esfera que diz defender.

A reportagem procurou a assessoria de Lucas Bove para comentar a fala no podcast e a contradição com sua situação na Justiça. Segundo o assessor Helder Bertazzi, o deputado optou por não se manifestar.

Mais do que enfraquecer o discurso anticorrupção, a declaração de Bove reacende um debate antigo no Brasil: até onde a fé pode servir de justificativa para relativizar princípios da vida pública. Ao priorizar a religião sobre a ética, o deputado abre espaço para questionamentos sobre os limites entre convicção pessoal e responsabilidade no cargo público.

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