A eleição presidencial argentina de 2027 ainda está distante, mas já influencia conversas entre investidores, empresários e dirigentes políticos. A queda na aprovação de Javier Milei, somada às dificuldades econômicas e às denúncias que atingiram integrantes de seu governo, abriu espaço para uma pergunta que parecia improvável após o avanço eleitoral do libertário: existe lugar para uma alternativa entre o atual presidente e o kirchnerismo?
Essa possibilidade ganha atenção porque uma parcela do eleitorado demonstra insatisfação com os dois polos que dominam o debate. De um lado, Milei mantém sua defesa da austeridade, da redução do Estado e do controle das contas públicas. Do outro, o peronismo tenta reorganizar sua liderança sem apresentar, até agora, um projeto único para a próxima eleição.
O desafio para uma eventual terceira via será reunir elementos que raramente caminharam juntos na política argentina: disciplina fiscal, compromisso com a dívida, crescimento econômico e presença estatal em áreas como infraestrutura, produção e emprego.
A aprovação de Milei perde força
Milei chegou ao poder em dezembro de 2023 com a promessa de controlar a inflação, eliminar o déficit e romper com as práticas da chamada “casta política”. Seu programa conseguiu reduzir de forma expressiva o ritmo de alta dos preços e restabelecer o equilíbrio fiscal.
Ainda assim, os resultados não chegaram de maneira uniforme à população. A inflação permanece elevada, o mercado de trabalho enfrenta dificuldades e parte dos salários ainda não recuperou plenamente o poder de compra perdido nos últimos anos.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico projeta uma inflação média próxima de 31% em 2026 e de 16% em 2027. O organismo reconhece os avanços promovidos pela disciplina fiscal e monetária, mas alerta que uma desaceleração das reformas ou o aumento das incertezas políticas pode comprometer a recuperação.
Já o Fundo Monetário Internacional estima crescimento de 3,5% para a Argentina em 2026, com inflação ao consumidor de 30,4%. Os dados mostram uma economia mais estável do que a encontrada por Milei no início do mandato, porém ainda distante de uma normalização completa.
Denúncias atingem discurso contra a corrupção
Além das dificuldades econômicas, o governo passou a enfrentar uma sucessão de denúncias envolvendo pessoas próximas ao presidente. O episódio mais recente foi a renúncia do chefe de Gabinete Manuel Adorni, em 27 de junho, após acusações relacionadas a seu patrimônio e a despesas consideradas incompatíveis com a renda declarada.
Adorni negou irregularidades e afirmou que provaria sua inocência na Justiça. Entretanto, sua saída atingiu um dos principais pilares da narrativa política de Milei: a promessa de combater a corrupção e romper com as práticas atribuídas aos governos anteriores.
De acordo com a Reuters, a aprovação do presidente caiu de 53% para 39% em um ano. O desgaste não significa que Milei tenha perdido competitividade, mas reduz a percepção de que sua reeleição seria praticamente inevitável.
Ao mesmo tempo, o governo continua defendendo sua política de austeridade. Entre as propostas recentes está uma mudança no sistema orçamentário para impedir que o Executivo mantenha automaticamente o orçamento anterior quando o Congresso não aprovar uma nova peça. Milei argumenta que a medida ajudaria a preservar o equilíbrio fiscal.
Peronismo busca uma nova identidade
O enfraquecimento do governo devolveu fôlego ao peronismo, que discute a formação de uma frente mais ampla para disputar a Presidência. Dirigentes do movimento tentam aproveitar a queda de popularidade de Milei, mas ainda enfrentam divergências sobre o caminho econômico a seguir.
Uma ala defende a reversão das principais medidas de austeridade. Outra entende que o partido precisará preservar parte do ajuste fiscal, o compromisso com o pagamento da dívida e a redução da emissão monetária, enquanto recupera políticas de investimento público, indústria e proteção ao emprego.
Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires, aparece como um dos principais nomes do campo peronista. Sua força política vem da administração do distrito mais populoso do país e da proximidade com a base kirchnerista.
Porém, seu histórico como ministro da Economia durante o governo de Cristina Kirchner desperta desconfiança entre investidores. O temor é que uma eventual gestão de Kicillof retome políticas intervencionistas e aumente novamente os riscos fiscais e cambiais.
A tarefa do governador será preservar o apoio do eleitorado ligado ao kirchnerismo sem ficar inteiramente associado às experiências econômicas rejeitadas nas urnas em 2023.
Cristina Kirchner ainda influencia a oposição
Mesmo impedida de ocupar cargos públicos, Cristina Kirchner continua exercendo influência sobre o peronismo. Sua capacidade de organizar a base e interferir na escolha de candidatos permanece relevante, embora sua força para construir uma candidatura competitiva pareça menor do que em eleições anteriores.
O movimento vive, portanto, uma disputa pela sucessão de sua principal liderança. Kicillof tenta ocupar esse espaço, enquanto outros dirigentes defendem uma reformulação mais profunda da proposta peronista.
Sergio Massa, derrotado por Milei em 2023, também participa das articulações. Ex-ministro da Economia, ele mantém diálogo com governadores, prefeitos e parlamentares, embora ainda não tenha confirmado uma nova candidatura.
A possibilidade de participação do ex-presidente Mauricio Macri adicionaria outro nome ao campo oposicionista, mas sua elevada rejeição reduz, por enquanto, as chances de que volte a liderar uma chapa presidencial.
O difícil espaço para uma terceira via
A fragmentação estimula governadores, empresários e lideranças de centro a discutir um projeto que não reproduza integralmente nem o modelo de Milei nem as antigas políticas kirchneristas.
Essa alternativa tentaria manter o equilíbrio das contas públicas, evitar a emissão monetária para financiar gastos e garantir o pagamento da dívida. Ao mesmo tempo, defenderia uma atuação mais ativa do Estado para incentivar infraestrutura, produção e emprego.
A fórmula pode encontrar receptividade entre eleitores cansados da polarização. Entretanto, o projeto ainda enfrenta um obstáculo essencial: não possui uma liderança nacional capaz de reunir partidos diferentes e alcançar força suficiente para chegar ao segundo turno.
O mercado também permanece cauteloso. A Argentina tem mais de US$ 23 bilhões em pagamentos de principal previstos para 2027, ou mais de US$ 32 bilhões quando os juros são incluídos. O governo pretende cumprir essas obrigações com recursos de organismos multilaterais, privatizações e emissões no mercado local, sem depender de uma volta imediata ao mercado internacional de títulos.
Por isso, qualquer candidatura competitiva será examinada não apenas por suas propostas sociais, mas também por sua capacidade de manter a estabilidade fiscal e assegurar o pagamento da dívida.
Eleição continua aberta
Milei ainda conta com uma base fiel, mantém influência sobre o debate público e pode ser beneficiado pela divisão de seus adversários. Em um cenário no qual várias candidaturas disputem o mesmo eleitorado, seu núcleo de apoio poderá ser suficiente para levá-lo novamente ao segundo turno.
O risco para o presidente surgirá caso peronistas moderados, governadores e forças de centro consigam se unir em torno de uma candidatura única. Uma frente com disciplina fiscal e maior sensibilidade social poderia disputar tanto votos do peronismo quanto de eleitores decepcionados com o governo.
Por enquanto, a terceira via argentina existe mais como demanda do que como projeto político organizado. A busca por esse caminho, porém, revela uma mudança importante: a reeleição de Milei deixou de ser tratada como um resultado garantido, e a corrida presidencial de 2027 começou antes do previsto.
Fonte: Bloomberg Línea
