Revista Poder

Governo Trump cita desmatamento ao impor tarifa de 25% sobre produtos brasileiros

Observatório do Clima contesta argumento dos Estados Unidos, enquanto dados apontam queda de 20,6% na área desmatada em 2025

O desmatamento é rampante sob Bolsonaro. O dado de março de 2021, se levado à mesa para Joe Biden, não vai ser bonito. Segundo o monitoramento por satélite do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), a região teve 810 km2 de seu território desmatado. É o pior março desde 2011 e, em comparação a março de 2020, houve aumento de 216%. O primeiro trimestre de 2021 já concentra o dobro da área desmatada do mesmo período de 2020. E isso porque 2020 não foi lá essas coisas - ou melhor: foi um ano bem ruim, registrando o maior desmatamento da década, 11 088 quilômetros quadrados. A narrativa oficial é que as emissões de C02 brasileiras representam apenas 3% das mundiais – e o desmatamento, no caso do Brasil, é o grande vilão. Mas dado que os grandes emissores, China e Estados Unidos, começam a disputar uma corrida para reduzir seus números e por assumir a vanguarda do “Green Deal”, as metas reafirmadas nas últimas cúpulas pelo Brasil, de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% até 2025 e em 43% até 2030, tendo como base o padrão de 2005, parecem tímidas demais. De fato, empresários agora sugerem emissão zerada (neutra) até 2050, um objetivo bem mais auspicioso que o oficial – que é de fazê-lo apenas em 2060; além disso, Bolsonaro repetiu Dilma e em sua carta a Joe Biden sugeriu compromisso com desmate zero em 2030. E apesar das juras de comportamento ambientalmente correto para Biden, o projeto apresentado pelo Governo Federal para endereçar o problema do desmatamento da Amazônia é tímido em suas metas e insuficiente em seu detalhamento. O Plano Amazônia 2021/2022, que veio a lume na quarta-feira (14), não apresenta orçamento nem declina o contingente necessário de trabalhadores para sua consecução. (Créditos: Bruno Kelly/Amazônia Real)

O governo de Donald Trump incluiu o desmatamento ilegal entre as justificativas para aplicar uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros. A medida foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, no dia 15 de julho.

Segundo o órgão, a decisão ocorreu após uma investigação iniciada em julho de 2025. O processo analisou práticas brasileiras em áreas como comércio digital, meios de pagamento, propriedade intelectual, combate à corrupção, mercado de etanol e proteção ambiental.

Na avaliação do USTR, o Brasil possui leis para enfrentar o desmatamento ilegal, mas não fiscaliza esse conjunto de normas de forma eficaz. O órgão também afirma que a exploração de terras desmatadas ilegalmente criaria vantagens para produtores brasileiros diante dos concorrentes norte-americanos.

Pesquisador contesta justificativa ambiental

O secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, considera que o argumento ambiental funciona como justificativa para uma decisão de caráter comercial e político.

“O governo Trump está usando a questão ambiental para impor barreiras comerciais que servem apenas como uma desculpa”, afirmou Astrini à Agência Brasil.

Para o pesquisador, a posição dos Estados Unidos também contrasta com as políticas ambientais adotadas pelo próprio governo norte-americano. Além disso, ele questiona por que o desmatamento não aparece como justificativa para medidas semelhantes contra outros países.

“É uma medida puramente política, não tem nada a ver com a questão ambiental. É apenas uma desculpa para impor uma barreira tarifária ao país”, declarou.

Desmatamento caiu em 2025

Os dados mais recentes do MapBiomas mostram que o desmatamento recuou no Brasil em 2025. A área de vegetação nativa perdida somou 984.794 hectares, uma queda de 20,6% na comparação com 2024.

Pela primeira vez desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta, em 2019, o total anual ficou abaixo de 1 milhão de hectares. Todos os biomas registraram redução, embora a perda de vegetação continue elevada em diferentes regiões do país.

A Amazônia e o Cerrado concentraram mais de 84% de toda a área desmatada no período. O Cerrado liderou o levantamento, com 540.614 hectares perdidos. Ainda assim, o número representa uma queda de 16,9% em relação ao ano anterior.

Na Amazônia, o desmatamento atingiu 289.478 hectares, recuo de 23,5%. Já o Pantanal apresentou a maior redução proporcional entre os biomas, com queda de 48,4%.

Agropecuária concentra perda de vegetação

De acordo com o levantamento, a expansão agropecuária esteve associada a 99% da perda de vegetação nativa registrada no país em 2025. O estudo também identificou pressões relacionadas ao garimpo, à expansão urbana e à implantação de projetos de energia renovável.

Nos casos ligados ao garimpo, 99% da área desmatada estava na Amazônia, principalmente no Pará. Por outro lado, os empreendimentos de energia renovável concentraram 97% de sua perda associada na Caatinga.

Astrini também destaca o reforço das ações de fiscalização do Ibama como um dos fatores importantes para a redução. Em 2025, o órgão recebeu a aprovação de R$ 825,7 milhões do Fundo Amazônia para ampliar o monitoramento e o combate ao desmatamento ilegal na Amazônia Legal.

Apesar da queda registrada em 2025, o cenário ainda exige atenção. Em sete anos, o Brasil perdeu mais de 10,9 milhões de hectares de vegetação nativa. Portanto, os números indicam avanços recentes, mas também mostram a dimensão do desafio ambiental que permanece no país.

Fonte: Agencia Brasil

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