Revista Poder

Anvisa amplia acesso de crianças e adolescentes a tratamentos para lúpus e esclerose múltipla

Novas indicações autorizam o uso do belimumabe a partir dos 5 anos e do ocrelizumabe para pacientes com 12 anos ou mais

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ampliou as indicações de dois medicamentos destinados ao tratamento de doenças autoimunes em crianças e adolescentes. A decisão, publicada no Diário Oficial da União, envolve o belimumabe, usado em casos de lúpus eritematoso sistêmico, e o ocrelizumabe, voltado à esclerose múltipla remitente-recorrente.

Com a autorização, pacientes com lúpus ativo a partir dos 5 anos poderão receber o Benlysta, nome comercial do belimumabe, como terapia complementar ao tratamento já adotado. Já o Ocrevus, à base de ocrelizumabe, passa a contemplar adolescentes a partir dos 12 anos que pesem pelo menos 40 kg.

Novo uso do belimumabe para lúpus infantil

A indicação pediátrica do belimumabe contempla crianças com alto grau de atividade do lúpus eritematoso sistêmico que já utilizam o tratamento padrão. Esse cuidado pode incluir corticosteroides, antimaláricos, anti-inflamatórios não esteroides e outros medicamentos imunossupressores.

A ampliação também abrange versões administradas por meio de caneta aplicadora ou autoinjetora. Dessa forma, algumas famílias podem reduzir os deslocamentos até centros especializados para infusão. A apresentação intravenosa do medicamento já contava com autorização para pacientes pediátricos.

O lúpus eritematoso sistêmico é uma doença inflamatória e autoimune capaz de atingir diferentes órgãos e tecidos. Entre as regiões que podem sofrer alterações estão a pele, as articulações, os rins e o cérebro.

Febre, rigidez muscular, inchaço, queda de cabelo e lesões na pele que aparecem ou pioram após a exposição solar estão entre as possíveis manifestações. Além disso, algumas pessoas apresentam aumento dos linfonodos.

Segundo dados citados pela Sociedade Brasileira de Reumatologia, o lúpus afeta entre 150 mil e 300 mil pessoas no país, principalmente mulheres de 20 a 45 anos. O diagnóstico pode reunir exames de sangue e urina, além de avaliações específicas, como a biópsia renal, conforme o quadro de cada paciente.

Terapia para esclerose múltipla a partir dos 12 anos

A Anvisa também autorizou o uso do ocrelizumabe em pacientes com esclerose múltipla remitente-recorrente a partir dos 12 anos e com peso mínimo de 40 kg.

O medicamento é um anticorpo monoclonal recombinante que atua na redução da atividade inflamatória relacionada à doença. A nova indicação permite que adolescentes tenham acesso a uma terapia de alta eficácia em uma fase mais precoce do acompanhamento.

Para o neurologista e neuroimunologista Caio Disserol, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a autorização representa um avanço para médicos, pacientes e familiares. Segundo o especialista, iniciar um tratamento mais direcionado ainda na adolescência pode contribuir para um prognóstico mais favorável ao longo dos anos.

O que é a esclerose múltipla remitente-recorrente?

A esclerose múltipla é uma doença crônica, inflamatória e autoimune que afeta o sistema nervoso central. O sistema imunológico ataca a mielina, estrutura que envolve e protege as fibras nervosas, e prejudica a comunicação entre o cérebro e outras regiões do corpo.

Na forma remitente-recorrente, a pessoa atravessa períodos de surgimento ou agravamento de sintomas neurológicos, chamados de surtos. Depois, pode ocorrer uma recuperação parcial ou completa.

Quando os primeiros sintomas aparecem antes dos 18 anos, a condição é considerada rara e pode apresentar maior gravidade. Entre as manifestações mais frequentes estão fadiga intensa, formigamento, dormência, fraqueza muscular e alterações visuais, como visão dupla ou turva.

A doença também pode provocar desequilíbrio e dificuldade para controlar a bexiga. O diagnóstico depende da avaliação de um neurologista e de exames complementares.

Embora as causas não estejam completamente esclarecidas, fatores genéticos e ambientais podem contribuir para o desenvolvimento da doença. Infecções virais, tabagismo e obesidade aparecem entre os possíveis gatilhos.

A ampliação das indicações pediátricas oferece novas possibilidades de cuidado para duas condições complexas. Ainda assim, a definição do tratamento deve considerar as características de cada paciente e ocorrer com acompanhamento médico especializado.

Fonte: Agência Brasil, com informações da Anvisa e declarações do neurologista Caio Disserol

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