Um restaurante pode começar pela cozinha, mas dificilmente se sustenta apenas por ela. Localização, serviço, arquitetura, identidade e comportamento do público também determinam a forma como um endereço entra na rotina de uma cidade. É a partir dessa combinação que Bernard Barzi vem construindo sua atuação no mercado gastronômico.
Nascido em Roma, o empresário ítalo-brasileiro começou a trabalhar aos 13 anos e estudou Hospitality Management e Business Administration. Antes dos 30, já participou da criação e da operação de negócios no Brasil e em Portugal, desenvolvendo um portfólio que inclui restaurantes, um quiosque à beira-mar e uma nova marca de pizza pensada para o ritmo urbano.
No Rio de Janeiro, seus projetos percorrem realidades distintas. O Rocco acompanha a vida social de Ipanema; o Lost in Rio se conecta ao movimento da praia; o Otávio Cucina Italiana ocupa um casarão histórico no Centro; e a Krosta nasce voltada a um consumo rápido e cotidiano. Em Lisboa, a La Fiorentina mantém o vínculo com sua origem italiana.
Apesar das diferenças entre os formatos, os empreendimentos partem de uma mesma premissa: entender a cidade antes de definir o negócio.
“Um restaurante precisa fazer sentido para o lugar onde está. Não basta ter um bom produto. É preciso entender o bairro, o público, o ritmo da cidade e o que as pessoas esperam viver naquele espaço”, afirma.
A cidade como parte do conceito
Bernard escolheu o Rio como sua principal base de atuação. Para ele, a cidade reúne turismo, diversidade cultural e uma relação própria com os encontros em torno da mesa. Ao mesmo tempo, cada bairro impõe uma dinâmica diferente e exige decisões específicas de produto, ambiente e operação.
Sua formação internacional ajudou a organizar uma experiência adquirida principalmente na prática. Ao passar por diferentes mercados, ele observou modelos de atendimento, hábitos de consumo e formas de posicionar marcas.
Esse repertório aparece na maneira como interpreta a hospitalidade. Em seus projetos, gastronomia, arquitetura, serviço e gestão não funcionam como áreas separadas. São partes de uma mesma experiência, construída tanto para atrair o público quanto para fazê-lo retornar.
A influência familiar também ocupa um lugar importante nessa trajetória. Bernard aponta o padrasto como uma de suas principais referências profissionais, especialmente pelos valores ligados ao trabalho, à responsabilidade e à condução dos negócios.
Com o tempo, a experiência mostrou que a inauguração representa apenas o começo. O desafio maior está na capacidade de repetir uma boa entrega, mesmo quando a novidade passa.
“Criar expectativa é relativamente fácil. O difícil é entregar bem de forma consistente. Um restaurante não pode funcionar apenas quando o dono está presente ou quando a casa está sendo inaugurada. É preciso construir processos, formar equipes e garantir que a experiência seja sólida todos os dias”, diz.
Rocco e a experiência que se prolonga
Na Rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema, o Rocco representa a vertente mais ampla dessa visão. Com aproximadamente mil metros quadrados e capacidade para receber até 180 pessoas sentadas, a casa reúne cozinha aberta, Sushi Bar, coquetelaria autoral e programação musical.
Após o primeiro ano de funcionamento, o restaurante consolidou uma identidade ligada à culinária japonesa contemporânea. O Sushi Bar ocupa posição central na proposta, com atenção à qualidade dos ingredientes, à precisão técnica e a uma interpretação atual da gastronomia asiática.
Entretanto, o projeto não foi pensado apenas para a refeição. O jantar pode continuar no bar, na música ou nos encontros, acompanhando um público formado por moradores, cariocas de outras regiões e visitantes estrangeiros.
Esse processo também exigiu ajustes ao longo do caminho. Para Bernard, preservar a essência de uma marca não significa manter todas as decisões iniciais.
“Empreender também é saber ajustar. Às vezes, a ideia inicial precisa amadurecer. O importante é ter clareza sobre a essência do negócio e coragem para realizar as mudanças necessárias sem perder identidade”, afirma Bernard.
Por trás da experiência, a operação envolve fornecedores, treinamento, custos, comunicação e manutenção de padrão. É nesse equilíbrio entre conceito e execução que ele identifica a diferença entre um endereço de momento e uma marca capaz de permanecer.
Gastronomia italiana em dois lados do Atlântico
A ligação com a cozinha italiana aparece em dois projetos desenvolvidos em contextos muito diferentes.
No Centro do Rio, o Otávio Cucina Italiana ocupa um casarão secular na Rua do Lavradio, ao lado do Rio Scenarium. O cardápio combina tradição italiana e referências brasileiras, com massas frescas artesanais e preparos à base de frutos do mar.
A localização aproxima o restaurante da vida cultural, histórica e boêmia da região. Com cerca de seis meses de operação, a casa recebe aproximadamente 200 pessoas por dia durante o almoço, atendendo tanto ao público corporativo quanto a visitantes que circulam pelo bairro.
O movimento reforça a confiança do empresário no potencial do Centro, onde patrimônio, turismo e rotina de trabalho criam oportunidades para operações capazes de dialogar com diferentes horários e perfis de consumo.
Já em Lisboa, a La Fiorentina estabelece uma relação mais direta com suas raízes. Inaugurada em 12 de abril de 2024, a casa passou por um processo longo até abrir as portas. Bernard assumiu o ponto em 2022, mas o embargo da obra adiou o projeto por mais de um ano.
Com capacidade para 120 pessoas e funcionamento no almoço e no jantar, o restaurante propõe uma cozinha italiana fiel à tradição, mas apresentada em um ambiente descontraído e acolhedor. À frente do cardápio está o chef Armando Capocci. Entre os destaques estão a Pasta Cacio e Pepe e o tiramisù finalizado à mesa.
Administrar negócios em dois países exige equipes de confiança, alinhamento e visitas frequentes. Bernard viaja a Lisboa a cada três meses e mantém, nas duas operações, uma lógica baseada em serviço, produto e consistência.
A experiência portuguesa também ampliou sua leitura sobre os desafios de atuar internacionalmente. Burocracia, mão de obra e diferenças culturais estão entre os principais pontos de atenção. Ainda assim, Europa, Estados Unidos e Ásia aparecem como possíveis territórios para futuros projetos.
Da praia ao movimento do Centro
No Posto 8, em Ipanema, o Lost in Rio traduz uma relação mais informal com a hospitalidade. O quiosque combina comida brasileira, café da manhã, música e vista para o Morro Dois Irmãos.
Aberto diariamente, acompanha o movimento da orla desde as primeiras horas da manhã. Ao longo do dia, recebe moradores, turistas e frequentadores da praia, tornando-se um ponto de encontro conectado ao estilo de vida do bairro.
Com aproximadamente um ano de funcionamento, o projeto está ligado à chegada de Bernard ao Rio e ao início de sua inserção no mercado local. A proposta mostrou como adaptar produto e serviço à espontaneidade da praia sem abandonar posicionamento e identidade.
Em outra direção, a Krosta nasce para acompanhar a velocidade do Centro. A primeira unidade será aberta na Rua Almirante Barroso, tendo como produto principal uma fatia quadrada de pizza de 14 por 14 centímetros.
A massa terá fermentação de 48 horas, enquanto o formato individual busca simplificar o consumo e agilizar o atendimento. A marca pretende ocupar uma posição entre a pizzaria tradicional e o fast food, com uma operação enxuta e identidade urbana.
“O Centro tem uma energia própria. É uma região de passagem, trabalho, encontros e história. A Krosta foi pensada para esse movimento. Queremos entregar um produto muito bem feito de maneira simples, rápida e conectada ao cotidiano de quem está ali”, explica.
A estrutura abre espaço para uma expansão futura mais ágil. No entanto, Bernard defende que a escala só faz sentido quando acompanha o controle de qualidade e preserva os elementos que tornam a marca reconhecível.
Negócios pensados para diferentes momentos
Rocco, Otávio Cucina Italiana, Lost in Rio, Krosta e La Fiorentina não repetem a mesma fórmula. Cada projeto ocupa uma posição distinta e procura responder a um comportamento específico.
Há a experiência prolongada de uma noite em Ipanema, o almoço em um endereço histórico, o encontro casual à beira-mar, a refeição rápida no Centro e a cozinha italiana em Lisboa.
Essa diversidade permite que o portfólio alcance diferentes países, bairros, horários e ocasiões. Ao mesmo tempo, reduz a dependência de um único formato em um mercado exposto a transformações econômicas e mudanças nos hábitos do consumidor.
Os projetos compartilham alguns pilares: conceito claro, atenção ao produto, leitura do entorno e disciplina operacional. Bernard procura construir marcas capazes de criar reconhecimento e vínculos, em vez de apenas ocupar espaços físicos.
Hospitalidade como memória
Mesmo com uma atuação orientada por processos, expansão e posicionamento, o empresário afirma que a dimensão humana continua no centro de sua visão.
No Rio, restaurantes, bares e quiosques se integram à vida cultural dos bairros. Além de gerar empregos e movimentar a economia, tornam-se cenários para encontros, comemorações e histórias pessoais.
“O que mais me inspira é saber que um negócio pode ir muito além do resultado financeiro. Gosto de criar lugares que façam parte da história das pessoas, onde elas celebrem conquistas, construam lembranças e vivam momentos especiais. Acredito que empreender é ter a oportunidade de transformar ideias em algo que gere impacto positivo, emocione e deixe uma marca. É isso que me motiva a buscar inovação e evolução todos os dias”, afirma.
Aos 27 anos, Bernard Barzi já reúne operações de grande porte, projetos em diferentes países e marcas voltadas a públicos diversos. Sua trajetória combina repertório internacional com atenção ao comportamento local, mostrando que, na hospitalidade, crescer não depende apenas de abrir novos endereços, mas de compreender como cada lugar deseja receber e ser vivido.