Revista Poder

A ascensão silenciosa que redesenha o secretariado de Tarcísio

Enquanto a máquina estadual se reorganiza para o ano eleitoral, a secretária Natália Resende ganha protagonismo e um novo nome desponta para o coração do Palácio dos Bandeirantes

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Por Rodrigo Luchiari

A possível reforma no secretariado de Tarcísio de Freitas costuma ser tratada como especulação de bastidor, mas parte dela já aconteceu. Empurrada pelo calendário eleitoral, a máquina do governo paulista passou por uma dança das cadeiras nos primeiros meses de 2026 que revela mais sobre o projeto político do governador do que qualquer anúncio oficial. E no centro desse movimento aparecem duas trajetórias em ascensão, a da secretária Natália Resende e a de um nome que desponta para o núcleo mais sensível do Palácio dos Bandeirantes.

O pano de fundo é uma gestão que se sustenta em números sólidos de popularidade, ainda que com nuances. Levantamentos da Paraná Pesquisas, em abril, e da Futura, em maio, apontaram aprovação pessoal do governador em torno de 65%. Em junho, houve leve oscilação para baixo, com a Real Time Big Data registrando 63,2%. O Datafolha, mais rigoroso na avaliação da máquina, trouxe um retrato revelador. A aprovação ao trabalho pessoal de Tarcísio ficou em 63%, mas a avaliação da gestão como ótima ou boa parou em 45%. O eleitor gosta mais do governador do que do governo, distinção que a campanha da reeleição vai tentar dissolver.

Para alimentar essa vitrine, o Palácio aposta em três frentes. A segurança pública, que rendeu ao ex-secretário Guilherme Derrite uma candidatura ao Senado. A privatização da Sabesp, com a promessa de antecipar a universalização do saneamento. E as grandes obras de infraestrutura, como a conclusão do Trecho Norte do Rodoanel, prevista para o segundo semestre deste ano. Não por acaso, quase todos esses ativos estão sob o comando de uma única pasta.

A supersecretária

Natália Resende chefia a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, a maior estrutura do governo, criada por Tarcísio em 2023 para unificar áreas antes separadas. Sob sua responsabilidade estão Sabesp, Cetesb e o Departamento de Estradas de Rodagem, num conjunto que reúne um dos maiores orçamentos do Estado. Procuradora federal, ela trabalhou ao lado de Tarcísio no Ministério da Infraestrutura e foi um dos primeiros nomes anunciados para o secretariado, ainda em 2022.

O que a diferencia dos demais auxiliares é o momento da ascensão. Enquanto vários secretários deixavam o governo para disputar o pleito de outubro, Natália não apenas permaneceu como recebeu uma missão de peso, a coordenação do plano de governo da campanha de reeleição. O próprio governador já a chamou publicamente de supersecretária e contou que foi ela quem pediu mais responsabilidades. Em um secretariado que se esvazia de concorrentes internos, ela se firma como uma das figuras mais influentes do entorno.

O tabuleiro pós-Kassab

A ascensão de Natália ganha contorno mais nítido quando se olha o vácuo aberto na articulação política. Em março, Gilberto Kassab deixou a Secretaria de Governo e Relações Institucionais para se dedicar ao PSD, encerrando uma parceria desgastada. O afastamento veio depois de Kassab afirmar, em entrevista, que uma coisa é gratidão, reconhecimento e lealdade, e outra coisa é submissão, alfinetada dirigida à relação de Tarcísio com Jair Bolsonaro. Com a saída, a articulação se concentrou nas mãos de Roberto Carneiro, presidente estadual do Republicanos, hoje à frente da Secretaria de Governo.

A desincompatibilização, prazo legal que obrigou ocupantes de cargos no Executivo a deixar suas funções até 4 de abril para disputar a eleição, completou o rearranjo. Derrite saiu da Segurança e foi substituído pelo delegado Osvaldo Nico. Guilherme Piai deixou a Agricultura rumo à Câmara dos Deputados, com Geraldo Melo Filho assumindo em seu lugar. A reforma, portanto, já está em curso, e o que resta em aberto são justamente as posições mais próximas do governador.

O nome que desponta

É nesse tabuleiro reorganizado que entra a informação apurada por esta reportagem. O secretário Henguel é cotado para assumir um cargo dentro do Palácio dos Bandeirantes, provavelmente na Casa Civil. Uma chegada à Casa Civil sinalizaria o fortalecimento de um núcleo de confiança direta do governador no ponto mais central da máquina.

Nos dois cenários, o significado converge com a trajetória de Natália. Mais do que promoções isoladas, o que se desenha é a formação de uma nova geração de auxiliares que Tarcísio posiciona nas cadeiras estratégicas, enquanto os quadros mais políticos saem para a disputa ou perdem espaço. Para um governador que ainda equilibra o projeto de reeleição estadual com a sombra de um palanque nacional, saber quem ele coloca ao seu lado agora é uma das pistas mais confiáveis sobre o que pretende para depois.

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