Revista Poder

Carol Rossato: 25 anos entre couro, autoria e expansão

Fundadora fala à Poder sobre os desafios de empreender na moda, a força do couro e os próximos passos da marca

À frente de uma marca que completa 25 anos em 2026, Carol Rossato construiu sua trajetória na moda a partir de uma assinatura que tem o couro como protagonista, explorado por meio de técnicas artesanais, novas construções e uma leitura contemporânea do material. O que começou de forma independente ganhou escala sem abandonar a produção autoral e o cuidado com os detalhes.

Agora, a empresária vive uma nova etapa de expansão, marcada pela abertura da sexta loja da marca e pelo lançamento da linha Couture. Em entrevista à Poder, Carol fala sobre os aprendizados de mais de duas décadas à frente do negócio, os desafios de empreender no segmento de luxo, a relação entre criação e gestão e os próximos passos da marca.

Após mais de duas décadas de trajetória na moda, quais foram os principais aprendizados que moldaram a identidade da Carol Rossato como marca autoral?

Acho que o principal aprendizado foi entender que construir uma marca autoral exige tempo, coerência e, sobretudo, coragem para permanecer fiel àquilo em que você acredita.

Ao longo desses anos, a Carol Rossato foi amadurecendo junto comigo. Aprendi a ouvir o mercado sem necessariamente me tornar refém dele, a observar tendências sem abandonar a nossa identidade e a entender que relevância não significa mudar o tempo inteiro, mas saber evoluir preservando uma essência.

Sempre tive uma relação muito forte com a matéria-prima, com o fazer, com a construção das peças e com a ideia de criar roupas que permaneçam. Hoje, quando olho para a nossa trajetória, percebo que essa consistência foi fundamental para construirmos uma linguagem reconhecível e uma relação muito próxima com as nossas clientes.

O couro sempre foi a principal assinatura do seu trabalho. Como você mantém esse material relevante e contemporâneo em um mercado que exige constante inovação?

Talvez justamente por nunca enxergar o couro como uma limitação. Para mim, ele sempre foi um ponto de partida.

Existe um imaginário muito estabelecido em torno do couro — algo mais pesado, rígido, associado a determinadas peças — e sempre me interessou desconstruir um pouco essa percepção. Trabalhamos o couro buscando leveza, movimento, diferentes texturas, acabamentos, cores e construções. Gosto quando ele surpreende e, às vezes, quando você olha uma peça e nem imagina imediatamente que aquilo é couro.

A inovação também está muito ligada à técnica e ao conhecimento da matéria-prima. Quanto mais você conhece um material, mais possibilidades consegue extrair dele. Depois de tantos anos trabalhando com couro, continuo descobrindo novas formas de interpretá-lo. Acho que é justamente essa pesquisa constante que permite que ele continue contemporâneo sem perder sua nobreza e sua permanência.

Empreender na moda exige equilibrar criatividade e gestão. Como você conduz esse processo e quais são hoje os maiores desafios de liderar uma marca independente no segmento de luxo?

Esse equilíbrio talvez seja um dos maiores exercícios da minha trajetória. Existe a Carol criadora, que quer experimentar, pesquisar e imaginar sem tantas fronteiras, e existe a empresária, que precisa tomar decisões, olhar números, liderar pessoas e garantir a sustentabilidade do negócio. Com o tempo, aprendi que essas duas dimensões não precisam competir entre si — uma pode fortalecer a outra.

Hoje procuro construir uma estrutura e uma equipe que permitam que a criatividade exista, mas que também consigam transformar uma ideia em produto, experiência e negócio.

E existe, claro, o desafio de empreender no Brasil. Construir uma marca independente por aqui exige muita resiliência. Lidamos com custos altos, questões tributárias, oscilações econômicas e uma série de desafios que tornam ainda mais complexo produzir com qualidade, preservar processos artesanais e trabalhar com matérias-primas especiais.

Talvez por isso nosso crescimento sempre tenha sido muito seguro. Crescemos de forma cuidadosa, respeitando o momento da empresa e entendendo muito bem cada passo antes de dar o próximo. Nunca tivemos a lógica de crescer a qualquer custo. Para mim, é mais importante construir uma marca sólida e longeva do que simplesmente uma marca grande.

Ao mesmo tempo, acredito que ser independente também nos dá algo muito precioso: liberdade. Liberdade para respeitar nosso próprio tempo, fazer escolhas coerentes e continuar investindo naquilo em que acreditamos. No fim, empreender também é esse exercício constante de sonhar grande, mas construir com responsabilidade.

O que você acredita que diferencia a Carol Rossato no mercado brasileiro e quais são os próximos passos da marca?

Acredito que o nosso diferencial está na maneira como conseguimos unir matéria-prima, técnica e feminilidade a partir de uma linguagem muito própria.

O couro está no centro dessa história, mas a Carol Rossato nunca foi apenas sobre couro. É sobre a maneira como transformamos esse material e sobre a mulher para quem criamos: uma mulher que pode ser delicada e potente, sofisticada e natural ao mesmo tempo. Existe muita atenção ao toque, ao caimento, aos acabamentos e aos detalhes que talvez não sejam percebidos imediatamente, mas que fazem diferença quando você veste uma peça.

Depois de mais de duas décadas, sinto que estamos vivendo um momento muito interessante de amadurecimento e expansão da marca. Queremos ampliar nossa presença, alcançar novas clientes e novos mercados, mas fazendo isso de maneira consistente, sem perder aquilo que nos trouxe até aqui.

Mais do que crescer simplesmente por crescer, quero que a Carol Rossato se consolide cada vez mais como uma marca brasileira autoral, reconhecida pela excelência do seu trabalho com o couro, pela qualidade do fazer e por uma visão de luxo que valoriza aquilo que é feito com tempo, conhecimento e intenção.

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