Gilberto Kassab sempre foi conhecido por sua capacidade de enxergar vários movimentos à frente. O problema é que, ultimamente, parece estar cochilando justamente na hora de fazer os movimentos.
O primeiro cochilo foi político.
Durante sua passagem pela Secretaria de Governo de São Paulo, Kassab ocupou uma das posições mais estratégicas do governo Tarcísio. Ao mesmo tempo em que deveria ajudar na articulação política do governo, construiu e fortaleceu o PSD, ampliando sua influência entre prefeitos e lideranças.
A dúvida que ficou foi inevitável: Kassab estava trabalhando para o governo ou aproveitando o governo para fortalecer seu próprio projeto político?
A saída da secretaria, em março, resolveu formalmente o problema. Mas não apagou a impressão de que a estrutura do governo havia sido utilizada também como plataforma de construção partidária.
Depois veio o cochilo da “submissão”.
Ao comentar a relação entre Tarcísio e Bolsonaro, Kassab disparou:
“Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade. Outra coisa é submissão.”
Era uma frase calculada para separar Tarcísio de Bolsonaro. Só que produziu o efeito contrário.
Tarcísio respondeu defendendo sua relação com Bolsonaro e deixando claro que lealdade não era submissão.
Kassab, que costuma ser conhecido por evitar conflitos desnecessários, havia conseguido criar um conflito justamente com quem deveria ser um dos principais parceiros de seu partido em São Paulo.
Depois veio o cochilo da vice.
Kassab tentou entrar na chapa de Tarcísio como candidato a vice. Não apenas discutiu a possibilidade: em determinado momento, seu próprio nome passou a ser colocado como uma solução política para a chapa.
Só que Tarcísio optou por manter Felício Ramuth.
E aqui apareceu uma ironia que a política adora: Kassab queria ser o vice de Tarcísio. Não conseguiu. Depois, acabou escolhendo para si mesmo a vice de Caiado.
Há ainda um detalhe que pode se transformar em problema: se a chapa Caiado-Kassab terminar a eleição com uma votação muito baixa, Kassab poderá enfrentar uma pergunta incômoda — ele é um grande articulador político ou um candidato com dificuldade de transformar articulação em voto?
A política brasileira costuma ser generosa com quem articula nos bastidores.
Com o voto, é menos.
E então chegamos ao mais recente cochilo — desta vez, literalmente.
No debate presidencial da Band, realizado neste domingo, 23 de agosto, Kassab foi flagrado aparentemente cochilando na plateia. E não foi apenas durante a fala de um adversário: as imagens também mostram o momento em que ele parecia dormir enquanto seu próprio candidato, Ronaldo Caiado, falava.
O episódio viralizou.
Caiado, entretanto, resolveu fazer aquilo que talvez nenhum adversário conseguisse fazer melhor: transformou o cochilo do próprio vice em propaganda.
“Comigo na Presidência, você vai dormir tranquilo igual ao Gilberto Kassab no debate”, brincou o candidato.
E aí chegamos ao último capítulo: Lula.
Depois de escolher Caiado como candidato do PSD à Presidência, Kassab passou a fazer declarações que aproximam sua leitura do cenário eleitoral daquela que interessa ao campo de Lula. Em 14 de agosto, chegou a dizer que o Centrão estava com Lula e que Flávio Bolsonaro teria “chance zero” de vencer.
É uma posição política legítima.
Mas, estrategicamente, coloca Kassab numa situação curiosa: ele é vice de um candidato que pretende representar uma alternativa à polarização, mas passa boa parte do tempo explicando por que um dos polos não vai vencer.
Talvez o problema de Kassab seja justamente esse.
Ele passou tanto tempo tentando jogar em todos os tabuleiros que, em algum momento, ficou difícil saber qual partida realmente queria ganhar.
São Paulo.
Brasília.
Tarcísio.
Caiado.
A vice.
O PSD.
Lula.
Bolsonaro.
E agora, o debate.
Kassab pode até continuar sendo um dos maiores articuladores da política brasileira.
Mas existe uma regra cruel na política:
quem passa tempo demais olhando o tabuleiro dos outros corre o risco de cochilar quando chega a sua vez de jogar.
