A economia brasileira segue em expansão, mas perdeu ritmo no segundo trimestre deste ano. Segundo economistas ouvidos pelo g1, os números mais recentes revelam sinais de enfraquecimento no consumo das famílias e em setores mais dependentes do mercado interno.
O Produto Interno Bruto cresceu 0,5% entre abril e junho, resultado inferior ao avanço de 1,1% registrado no primeiro trimestre do ano. O desempenho foi sustentado principalmente pela agropecuária, que cresceu 2,8%, e pela indústria extrativa, com alta de 3,4%. Já a indústria de transformação apresentou recuo de 0,4% no período.
Para especialistas consultados, o resultado geral mostra uma economia que ainda avança, mas de forma menos disseminada, concentrada em poucos setores ligados à produção de commodities, enquanto o consumo interno perde força e outros segmentos enfrentam maiores dificuldades.
Segundo a professora de Economia do Insper, Juliana Inhasz, o principal alerta do resultado está justamente na composição do crescimento. Embora o avanço de 0,5% tenha superado ligeiramente a expectativa do mercado, que era de 0,4%, a economista avalia que o desempenho revela fragilidades importantes na estrutura da economia brasileira. Segundo ela, o número consolidado até parece razoável, mas a composição por trás dele expõe problemas que podem comprometer a sustentação de um crescimento mais robusto ao longo do tempo.
A economista também destaca a disparidade entre os segmentos industriais, com a indústria extrativa em expansão de 3,4% enquanto a indústria de transformação recua, evidenciando incertezas do setor e o impacto direto dos juros elevados, além de possíveis efeitos tributários. Para Inhasz, essa fraqueza específica da indústria de transformação merece atenção redobrada, já que se trata de um setor com cadeias produtivas mais longas, maior capacidade de geração de empregos e de agregação de valor dentro do país, e que depende fortemente das condições do mercado interno.
Outro ponto de preocupação apontado pela economista é a queda de 0,4% no consumo das famílias durante o trimestre. Segundo ela, esse recuo indica maior cautela por parte da população, mesmo em um cenário de mercado de trabalho ainda relativamente aquecido, refletindo um cenário de incerteza econômica que leva as famílias a reduzirem gastos e reter recursos.
Enquanto isso, os gastos do governo cresceram 0,4% na comparação com o primeiro trimestre, movimento que, segundo Inhasz, mostra o esforço do poder público em sustentar a atividade econômica mesmo diante da desaceleração generalizada. Já os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo, avançaram 1,2% no período, mas a taxa de investimento em relação ao PIB permaneceu em 16,1%, patamar considerado insuficiente pela economista para garantir um crescimento mais consistente e duradouro sem gerar pressões inflacionárias adicionais.
Já a economista e professora da FGV Carla Beni relaciona a perda de força do consumo aos efeitos defasados da política monetária mais restritiva adotada desde o início de 2022, quando a Selic passou a operar em dois dígitos. Segundo ela, esses efeitos vêm se manifestando de forma mais evidente agora, após anos de crescimento médio do PIB em torno de 3% ao ano. A economista também associa a dificuldade das famílias em sustentar o consumo ao elevado nível de inadimplência registrado atualmente, citando dados que apontam mais de 48% da população adulta com o nome negativado.
Carla Beni ainda pondera que o bom desempenho da agropecuária não deve ser interpretado como sinal de aceleração generalizada da economia, já que o setor representa uma fatia relativamente pequena do PIB, entre 7% e 8% do total, enquanto os serviços respondem por cerca de 70% e a indústria por algo entre 20% e 22%. Para ela, o agronegócio ajuda a sustentar o resultado geral, mas não é suficiente para compensar sozinho a perda de força de setores com maior peso na economia nacional.
Já o CEO da Pilar Capital, André Caruso, interpreta o resultado do segundo trimestre como confirmação de uma fase mais clara de desaceleração da economia brasileira. Segundo ele, o crescimento de 0,5% ainda representa avanço, mas já evidencia com mais nitidez os efeitos de uma política monetária restritiva sobre consumo, crédito e investimentos. Para o terceiro trimestre, o economista aponta risco de variação negativa, embora ainda considere prematuro tratar uma recessão como cenário mais provável, citando dados do IBC-Br que já indicam carregamento estatístico negativo para o período.
Caruso também avalia que a desaceleração da atividade pode abrir espaço para novos cortes na taxa Selic pelo Banco Central, já que a própria ata do Copom reconhece uma moderação gradual da economia. Segundo ele, caso os próximos indicadores confirmem um terceiro trimestre mais fraco e a inflação continue em trajetória de queda, a autoridade monetária poderá discutir não apenas o corte já esperado para setembro, mas também novos movimentos nas reuniões de novembro e dezembro. O economista ressalta, no entanto, que o principal obstáculo para uma aceleração desses cortes está nas expectativas de inflação, que seguem desancoradas, com o boletim Focus projetando IPCA de 5,01% para 2026 e 4,28% para 2027.
Apesar do cenário de desaceleração, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda manteve em 2,3% sua projeção de crescimento do PIB para 2026, patamar semelhante ao registrado em 2025, quando a economia brasileira avançou 2,3%, após alta de 3,4% em 2024. Segundo a pasta, a expectativa é de que a economia continue perdendo ritmo no terceiro trimestre, mas retome gradualmente o crescimento até o fim do ano, à medida que a redução dos juros beneficie os setores mais sensíveis ao crédito.
