Revista Poder

Viagens corporativas ganham papel estratégico no crescimento das empresas

Carlos Schwartzmann, co-CEO da Costa Brava Travel & Events, analisa como dados, tecnologia e inteligência artificial estão transformando deslocamentos em ferramentas de negócios

Foto: Divulgação

O mercado de viagens corporativas vive uma transformação que vai além do aumento da demanda. Em 2025, o setor movimentou R$ 13,7 bilhões no Brasil, o maior faturamento de sua história, segundo a Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (Abracorp). Mais do que um reflexo da retomada dos deslocamentos, o resultado mostra como as empresas passaram a enxergar as viagens de negócios sob uma nova perspectiva.

Se antes o foco estava principalmente no controle de custos, hoje as viagens ganham espaço como ferramenta de crescimento, relacionamento e expansão. Reuniões estratégicas, feiras, visitas técnicas e encontros com clientes passam a ser avaliados também pelo retorno que podem gerar, seja na abertura de mercados, no avanço de negociações ou no desenvolvimento de equipes.

Ao mesmo tempo, tecnologia, inteligência artificial e análise de dados estão tornando essa gestão mais precisa. Com informações integradas, as empresas conseguem acompanhar despesas, identificar padrões, automatizar processos e avaliar com mais clareza o impacto de cada deslocamento nos resultados do negócio.

À frente da Costa Brava Travel & Events, Carlos Schwartzmann acompanha essa mudança de perto. Co-CEO da companhia, que atua há quase quatro décadas no mercado de viagens corporativas, eventos, mobilidade e tecnologia, ele conversa com a Revista PODER sobre a evolução do setor, o papel da inteligência artificial e como uma gestão mais estratégica pode transformar viagens corporativas em um instrumento de geração de valor.

O mercado de viagens corporativas vive um novo momento. O que explica esse crescimento?

As viagens corporativas deixaram de ser apenas uma atividade operacional para se tornarem um instrumento de negócios. As empresas estão ampliando sua atuação em novos mercados, participando de mais feiras e eventos, fortalecendo o relacionamento com clientes e parceiros e investindo no desenvolvimento de suas equipes. Nesse contexto, a viagem passou a ser vista como uma ferramenta para gerar oportunidades e apoiar o crescimento. Ao mesmo tempo, a tecnologia tornou a gestão muito mais eficiente, permitindo maior controle, planejamento e mensuração de resultados.

Hoje, quais são os principais objetivos de uma viagem corporativa?

Os objetivos são bastante diversos, mas todos têm uma característica em comum: gerar valor para o negócio. As viagens estão voltadas para prospecção de clientes, abertura de novos mercados, participação em eventos e feiras, reuniões estratégicas, visitas técnicas, desenvolvimento de fornecedores e integração entre equipes. Cada vez mais, o deslocamento precisa estar associado a um resultado concreto para a empresa.

O comportamento do viajante corporativo também mudou?

Muito. Ao longo dos 38 anos de atuação da Costa Brava, acompanhamos de perto a evolução do perfil do viajante corporativo. Se antes a prioridade era apenas cumprir o deslocamento, hoje o colaborador valoriza conveniência, flexibilidade, segurança e uma experiência fluida em todas as etapas da viagem. Isso influencia diretamente na produtividade e até na percepção que ele tem da empresa. Cuidar da experiência do viajante deixou de ser um detalhe e passou a fazer parte da estratégia de gestão de pessoas.

Como medir o retorno sobre o investimento (ROI) de uma viagem de negócios?

O retorno não pode ser analisado apenas pelo custo da passagem ou da hospedagem. As empresas passaram a avaliar indicadores como geração de oportunidades comerciais, avanço nas negociações, novos contratos, fortalecimento do relacionamento com clientes, produtividade das equipes e cumprimento dos objetivos definidos antes da viagem. A tecnologia também permite acompanhar esses indicadores com mais precisão, tornando a tomada de decisão muito mais estratégica.

Qual o papel da inteligência artificial e da análise de dados na gestão das viagens corporativas?

A inteligência artificial vem transformando toda a gestão das viagens. Ela automatiza processos, apoia a escolha das melhores opções de compra, identifica oportunidades de economia, auxilia na gestão de políticas internas e oferece análises que tornam as decisões mais rápidas e assertivas. Ao mesmo tempo, o uso de dados permite compreender padrões de consumo, otimizar investimentos e construir uma gestão cada vez mais eficiente.

Na Costa Brava, enxergamos a inteligência artificial como uma ferramenta para potencializar o trabalho das pessoas. Temos investido em soluções próprias que analisam as interações entre clientes e consultores, identificam oportunidades de melhoria e geram recomendações personalizadas para o desenvolvimento das equipes. Isso permite oferecer um atendimento mais consistente, elevar a qualidade da experiência dos clientes e tornar os processos de capacitação muito mais ágeis e contínuos.

Ao mesmo tempo, a análise de dados amplia a capacidade de gestão ao identificar padrões de comportamento, antecipar necessidades e apoiar decisões baseadas em evidências, aumentando a eficiência operacional e garantindo uma gestão cada vez mais estratégica das viagens corporativas.

Como equilibrar controle de custos, experiência do colaborador e produtividade?

Esse é um dos principais desafios das empresas. Reduzir custos continua sendo importante, mas sem comprometer a produtividade ou a experiência do viajante. O equilíbrio vem de uma gestão baseada em tecnologia, dados e políticas bem definidas.

Nesse contexto, uma agência especializada assume um papel consultivo, ajudando a definir políticas de viagens, negociar com fornecedores, analisar indicadores e otimizar investimentos. O objetivo não é apenas reduzir despesas, mas garantir que cada viagem gere valor para o negócio.

Quais setores da economia têm ampliado mais os investimentos em viagens corporativas?

Observamos crescimento em diversos segmentos, especialmente indústria, tecnologia, agronegócio, saúde, serviços financeiros e empresas que estão em processo de expansão nacional e internacional. São setores que dependem fortemente de relacionamento, desenvolvimento de negócios, participação em eventos e proximidade com clientes e parceiros para sustentar seu crescimento.

O que diferencia uma gestão estratégica de viagens de uma gestão apenas operacional?

A gestão operacional está focada na emissão de passagens, reservas e controle de despesas. Já a gestão estratégica utiliza dados, tecnologia e inteligência para apoiar as decisões da empresa. Ela analisa indicadores, identifica oportunidades de otimização, integra viagens, eventos e mobilidade e contribui para que cada deslocamento esteja alinhado aos objetivos do negócio. É uma mudança de visão: a viagem deixa de ser um processo administrativo para se tornar uma ferramenta de gestão.

Um exemplo prático foi a operação realizada para o iFood, que mobilizou 6.189 participantes ao longo de uma semana, envolvendo 18 hotéis, mais de 3.500 hóspedes, cerca de 3.500 deslocamentos aéreos e rodoviários e uma operação integrada com mais de 500 profissionais entre equipes próprias e parceiros. Um projeto dessa complexidade só é possível quando existe uma gestão estratégica baseada em planejamento, tecnologia, integração entre diferentes frentes e monitoramento em tempo real, muito além da simples emissão de passagens e reservas.

Como a integração entre viagens, eventos e mobilidade deve transformar o mercado nos próximos anos?

As empresas buscam cada vez mais soluções integradas. Em vez de contratar fornecedores separados para cada necessidade, elas procuram parceiros que consigam reunir viagens, eventos, mobilidade e tecnologia em uma única estratégia. Isso gera ganhos de eficiência, reduz custos, melhora a experiência dos colaboradores e amplia a capacidade de gestão por meio de informações consolidadas.

Qual deve ser o papel das viagens corporativas na estratégia das empresas daqui para frente?

A tendência é que as viagens estejam cada vez mais conectadas aos objetivos estratégicos das organizações. Elas continuarão sendo uma ferramenta para impulsionar crescimento, fortalecer relacionamentos, apoiar processos de expansão e desenvolver equipes. Ao mesmo tempo, serão geridas de forma cada vez mais inteligente, com uso intensivo de tecnologia, inteligência artificial e análise de dados para garantir que cada investimento gere valor para o negócio.

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