Revista Poder

Saída de Leonardo Maria Del Vecchio amplia tensão entre herdeiros do império da Ray-Ban

Filho do fundador da EssilorLuxottica deixa funções no grupo enquanto família tenta destravar a gestão de uma fortuna avaliada em mais de € 40 bilhões

Foto: Reprodução Instagram

A sucessão de Leonardo Del Vecchio, fundador do grupo que controla marcas como Ray-Ban, segue longe de uma solução. Quatro anos após sua morte, a disputa entre os herdeiros ganhou um novo capítulo com a saída de Leonardo Maria Del Vecchio de cargos de gestão ligados à EssilorLuxottica.

Quarto filho do empresário, Leonardo Maria decidiu deixar as funções de estrategista-chefe da EssilorLuxottica e de presidente da Ray-Ban para concentrar seus esforços na LMDV Capital, seu family office. A decisão ocorre em meio a divergências sobre o futuro da Delfin, holding que concentra boa parte do patrimônio familiar e permanece como maior acionista da companhia de óculos.

Mais do que uma mudança executiva, o movimento chama atenção para um problema que acompanha o grupo desde 2022: como administrar uma fortuna superior a € 40 bilhões quando nenhum dos herdeiros tem, sozinho, poder suficiente para definir os rumos da holding.

Uma herança dividida entre oito pessoas

O testamento de Leonardo Del Vecchio distribuiu a participação na Delfin igualmente entre oito herdeiros, cada um com 12,5%. O grupo reúne seis filhos, a viúva do empresário, Nicoletta Zampillo, e Rocco Basilico, filho dela de outro relacionamento.

A estrutura, no entanto, exige amplo consenso para decisões relevantes. Na prática, diferenças entre os acionistas transformaram temas ligados à governança, à gestão do patrimônio e ao futuro dos investimentos em uma longa negociação.

A Delfin possui participações em algumas das maiores empresas europeias. Além da EssilorLuxottica, a holding investe no Monte dei Paschi di Siena, na seguradora Generali e no UniCredit, o que faz com que o impasse ultrapasse os limites da família e seja acompanhado de perto pelo mercado financeiro italiano.

Tentativa de reorganizar o controle não avançou

No início de 2026, Leonardo Maria tentou assumir uma posição mais relevante dentro da estrutura familiar. Ele se ofereceu para adquirir as participações de seus irmãos Luca e Paola Del Vecchio.

A operação, estimada em cerca de € 10 bilhões, elevaria sua fatia na Delfin para 37,5% e poderia criar uma nova configuração de poder dentro da holding.

Embora o plano tenha recebido aprovação familiar inicialmente, questões relacionadas ao financiamento e à governança acabaram impedindo a conclusão do negócio.

Diante do impasse, os herdeiros recorreram à Justiça em Luxemburgo, país onde a Delfin está sediada. O processo deverá estabelecer uma avaliação formal das participações, etapa que pode facilitar eventuais negociações futuras entre os integrantes da família. Ainda assim, uma definição judicial do valor das cotas não resolve, por si só, as divergências sobre quem terá influência nas decisões da holding.

Relação com a atual gestão entra em nova fase

A saída de Leonardo Maria também chama atenção pela mudança de tom em relação a Francesco Milleri, CEO da EssilorLuxottica e presidente do conselho da Delfin.

Durante anos, o herdeiro demonstrou apoio público ao executivo escolhido por seu pai para liderar os negócios. Na carta em que comunicou sua saída, porém, Leonardo Maria fez críticas ao ambiente interno da companhia e indicou um distanciamento em relação à cultura empresarial atual.

Ele afirmou que o entusiasmo e o sentimento de pertencimento já não seriam os mesmos e criticou a forma como determinados gestores passam a ser tratados quando suas posições deixam de ser confortáveis para a organização.

Apesar do peso simbólico da saída, as atividades operacionais da EssilorLuxottica não devem sofrer alterações imediatas. Leonardo Maria estava envolvido principalmente em iniciativas estratégicas e de marketing, incluindo movimentos de reposicionamento da Ray-Ban.

Pressão também vem do mercado

A crise de governança familiar acontece justamente em um momento de transformação para a EssilorLuxottica. A companhia tenta preservar a liderança no segmento de óculos inteligentes com inteligência artificial, área em que desenvolve produtos em parceria com a Meta.

Ao mesmo tempo, empresas como Apple, Google e Samsung avançam sobre esse mercado, ampliando a disputa por consumidores e tecnologia.

As ações da EssilorLuxottica acumulam forte desvalorização em 2026. Diante desse cenário, a empresa anunciou um programa de recompra de até cinco milhões de ações, operação avaliada em mais de € 800 milhões aos preços atuais.

A iniciativa foi interpretada como uma demonstração de confiança da administração no negócio, embora não elimine as incertezas relacionadas à Delfin.

Um impasse ainda sem desfecho

A saída de Leonardo Maria deixa o futuro da estrutura familiar ainda mais aberto. Ao concentrar sua atuação na LMDV Capital, ele se afasta da gestão direta do grupo ao mesmo tempo em que mantém sua posição como um dos oito acionistas da holding criada por seu pai.

Por enquanto, a principal questão permanece sem resposta: como os herdeiros irão reorganizar um dos maiores patrimônios empresariais da Europa sem comprometer a governança das companhias que fazem parte dele?

Entre negociações familiares, disputas judiciais e pressões do mercado, o legado de Leonardo Del Vecchio entra em uma fase em que a sucessão parece tão complexa quanto o próprio império que ele construiu.

 

Fonte: Bloomberg Línea

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