Nunca houve tanta gente com emprego no Brasil, e nunca as dívidas em atraso pesaram tanto no sistema de crédito. Os dois recordes foram divulgados nesta terça-feira (29) e ajudam a explicar por que a economia parece forte nos indicadores e apertada no dia a dia das famílias.
Segundo o Banco Central, a inadimplência média nas operações de crédito foi de 4,9% em julho para 5% em agosto, o nível mais alto desde o início da série, em março de 2011. O cálculo leva em conta empréstimos e financiamentos com mais de 90 dias de atraso, tanto de pessoas físicas quanto de empresas. Entre os consumidores, a taxa passou de 5,8% para 6%, também um recorde. Entre as empresas, ficou estável em 3,3%, patamar que não era visto desde outubro de 2017.
Do outro lado, o IBGE informou que o desemprego caiu para 5,3% no trimestre até agosto, contra 5,6% tanto no período até maio quanto um ano antes. A população ocupada chegou a 103,5 milhões, a maior já medida. Em três meses, foram 774 mil pessoas a mais trabalhando, e em um ano, 1,1 milhão. Ainda há 5,8 milhões de desocupados e 2,4 milhões de desalentados, que deixaram de procurar vaga.
O nível de ocupação, proporção de pessoas em idade de trabalhar que estão empregadas, foi de 58,9%. Dos ocupados, 39,5 milhões têm carteira assinada, 13,7 milhões não têm e 26,1 milhões trabalham por conta própria.
Para os economistas, o emprego sustenta a renda e o consumo, mas o efeito de juros altos por tanto tempo vai na direção contrária: com o crédito mais caro, a atividade esfria e as contas ficam mais difíceis de pagar. Leonardo Costa, do ASA Investimentos, diz que o desemprego permanece baixo, mas a abertura de vagas perdeu ritmo, e que as quedas seguidas da massa salarial exigem atenção por reduzirem o poder de compra das famílias.
O IBGE observou que o crescimento recente do emprego se concentrou em construção e indústria, com os outros setores estáveis. Na avaliação de Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, isso sinaliza um mercado que começa a perder força. Como o emprego costuma reagir com atraso, os efeitos do aperto monetário aparecem primeiro nas contratações e só depois no total de vagas existentes.
A desaceleração alimenta a expectativa de novas reduções da taxa básica de juros, mas de forma gradual, segundo Benedito, já que o mercado de trabalho ainda tem pouca mobilidade. A ata do Copom, divulgada na semana passada, reforça o tom de cautela e diz que a dimensão do ciclo dependerá da evolução do cenário. Na última reunião, a Selic caiu 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo.
As contas públicas também entram na equação. O Tesouro Nacional apontou déficit primário de R$ 13,58 bilhões em agosto, resultado menor que os R$ 16,2 bilhões do mesmo mês de 2025, em valores corrigidos, e o melhor para o período desde 2021, quando o rombo foi de R$ 11,8 bilhões. Para analistas, esse quadro dá mais conforto ao Banco Central para acelerar os cortes, desde que a inflação continue controlada.
