O mercado financeiro brasileiro iniciou a semana em forte movimento de alta, reagindo ao resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, chegou a superar pela primeira vez a marca de 209 mil pontos nesta segunda-feira (5), enquanto o dólar comercial recuava e era negociado abaixo de R$ 5.
Por volta do meio-dia, o Ibovespa avançava 8,22%, aos 207.910 pontos. Mais cedo, o índice chegou a ultrapassar os 209 mil pontos, estabelecendo uma nova máxima histórica. O recorde anterior havia sido registrado em abril, quando o indicador encerrou uma sessão próximo dos 198 mil pontos.
A reação dos investidores ocorre depois de um primeiro turno que alterou as expectativas em torno da corrida presidencial. Flávio Bolsonaro (PL) terminou a primeira etapa da eleição na liderança, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve 45,16%. Os dois candidatos voltarão às urnas em 25 de outubro.
O resultado ficou distante de boa parte das projeções divulgadas antes da votação e levou o mercado a rever suas apostas para a segunda etapa da disputa. A possibilidade de uma mudança na condução da política econômica e fiscal passou a ser incorporada com maior intensidade aos preços dos ativos.
Dólar recua e se aproxima de R$ 4,95
O movimento também foi expressivo no mercado de câmbio. Por volta do meio-dia, o dólar apresentava queda de 4,43%, cotado a R$ 4,9850. Durante a manhã, a moeda chegou a ser negociada a R$ 4,9530.
A valorização do real começou a aparecer antes mesmo da abertura dos negócios no Brasil. Ativos relacionados ao mercado brasileiro negociados no exterior registraram ganhos expressivos após a divulgação do resultado eleitoral. O fundo EWZ, que acompanha ações brasileiras e é negociado nos Estados Unidos, chegou a subir mais de 10%.
Para os investidores, o desempenho de Flávio no primeiro turno reduziu a percepção de previsibilidade sobre o resultado final da eleição e aumentou a necessidade de recalcular cenários para a economia. Questões relacionadas às contas públicas, aos juros e à trajetória da dívida passaram a ganhar ainda mais peso nas avaliações sobre os próximos meses.
Bancos estão entre os destaques da Bolsa
A alta do Ibovespa foi acompanhada por forte valorização de ações de grandes empresas brasileiras, especialmente no setor financeiro.
Por volta do meio-dia, Banco do Brasil avançava 11,89%, enquanto os papéis da B3 registravam alta de 23,68%. As ações do Bradesco também apresentavam forte valorização, com ganho de 13,21%.
O desempenho das ações reflete não apenas a reação imediata ao cenário político, mas também as expectativas dos investidores para juros, inflação, atividade econômica e resultados corporativos.
O Ibovespa é utilizado como uma das principais referências para medir o comportamento do mercado acionário brasileiro. O índice reúne ações de empresas negociadas na B3 e é influenciado tanto por fatores internos quanto pelo ambiente internacional.
Inflação volta a preocupar
Enquanto o mercado repercute o resultado das urnas, os indicadores econômicos continuam no radar dos investidores.
O relatório Focus, divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira, mostrou que a previsão para a inflação brasileira em 2026 voltou a superar 5%. A projeção para o IPCA passou de 4,99% para 5,01%, marcando a terceira semana consecutiva de alta na estimativa.
Para 2027, a expectativa recuou de 4,31% para 4,30%. A previsão para 2028 permaneceu em 3,80%.
A meta oficial de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
O mercado também reduziu ligeiramente a expectativa para o crescimento da economia. A projeção para o PIB em 2026 passou de 1,86% para 1,85%. Para 2027, a estimativa caiu de 1,41% para 1,40%.
Já a previsão para a taxa básica de juros permaneceu estável. Os economistas consultados continuam projetando a Selic em 13,50% ao ano no fim de 2026 e em 12% ao ano no encerramento de 2027.
Setor de serviços apresenta nova retração
Outro dado divulgado nesta segunda-feira mostrou perda de ritmo na atividade de serviços no Brasil.
O índice de gerentes de compras, conhecido pela sigla PMI, caiu de 50,5 pontos em agosto para 49,2 em setembro. Leituras abaixo de 50 indicam retração da atividade.
Segundo o levantamento da S&P Global, houve redução na atividade, no emprego e nos novos pedidos. As empresas ouvidas apontaram dificuldades políticas e econômicas, menor volume de investimentos e efeitos de paralisações entre os fatores que prejudicaram o desempenho do setor.
Apesar do resultado negativo, as companhias demonstraram maior confiança nas perspectivas para os próximos meses, diante da expectativa de uma melhora no ambiente econômico após a conclusão do processo eleitoral.
Mercado internacional também está atento aos juros
Nos Estados Unidos, o setor de serviços continuou crescendo em setembro, mas apresentou desaceleração. O índice calculado pelo Instituto de Gestão de Fornecimento caiu de 55,4 para 54,9 pontos.
Mesmo com a perda de ritmo, o indicador permaneceu acima de 50 pontos pelo 27º mês consecutivo, sinalizando expansão da atividade.
A força da demanda doméstica, especialmente o consumo das famílias e os investimentos ligados à inteligência artificial e à infraestrutura, continua sustentando parte da economia americana. Ao mesmo tempo, o aumento dos custos de insumos mantém a preocupação com a inflação e pode influenciar as decisões do Federal Reserve sobre os juros.
Em Wall Street, os índices apresentavam desempenhos diferentes durante a manhã. O Dow Jones recuava 0,13%, enquanto o S&P 500 avançava 0,36% e o Nasdaq subia 0,77%.
Na Europa, o cenário também era misto. O DAX, da Alemanha, registrava alta de 0,16%, e o FTSE 100, do Reino Unido, avançava 0,37%. O CAC 40, da França, recuava 0,78%.
Na Ásia, a maioria das bolsas terminou o pregão em alta, impulsionada principalmente pelo desempenho de empresas relacionadas à inteligência artificial. O Nikkei, do Japão, subiu 2,40%, enquanto o Hang Seng, de Hong Kong, ganhou 0,28% e o Taiex, de Taiwan, avançou 2,55%.
Eleição muda composição do Congresso
Além da disputa presidencial, o resultado do primeiro turno também alterou as expectativas sobre a composição política do Congresso a partir de 2027.
O PL elegeu 19 dos 54 senadores escolhidos na votação e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 das 81 cadeiras do Senado, tornando-se a maior bancada da Casa.
A nova configuração do Congresso será um dos elementos observados pelo mercado na avaliação dos próximos passos da política econômica. A capacidade do futuro governo de negociar medidas fiscais e aprovar propostas no Legislativo será considerada nas projeções para as contas públicas e para o ambiente de negócios.
Com a definição do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, os investidores passam agora a acompanhar as próximas semanas da campanha em busca de sinais sobre propostas econômicas, formação de alianças e possíveis mudanças na condução da política fiscal. Até a nova votação, a expectativa é de que declarações dos candidatos e pesquisas eleitorais provoquem novas oscilações nos mercados.
