Revista Poder

O novo Roadster da Tesla chegou tarde demais?

A Tesla finalmente mostrou o Roadster prometido em 2017. Mas, entre o anúncio e a entrega, a BYD virou líder global, os chineses banalizaram a potência e a própria Tesla deixou de querer ser só montadora

Filipe Callil - Foto: Divulgação

Na última quinta-feira, numa base de testes da SpaceX no Texas, a Tesla finalmente apresentou a nova geração do Roadster. O carro havia sido mostrado como protótipo em 2017, com entregas prometidas para 2020. No lançamento da semana passada, chegou com números de ficção científica: aceleração de zero a cem em menos de um segundo e uma versão com propulsores capaz de “voar”.

Confesso que assisti com um misto de fascínio e estranhamento. Fascínio, porque é impossível não admirar a teimosia de quem passa nove anos sustentando uma promessa. Estranhamento, porque a pergunta que me ocorreu não foi “quanto ele acelera?”, e sim outra, bem mais incômoda: ainda existe espaço para um projeto como esse?

Quando Elon Musk subiu ao palco em 2017, carro elétrico ainda era quase sinônimo de Tesla. As montadoras tradicionais tratavam o tema como nicho, e as chinesas eram vistas, no Ocidente, como fabricantes de carros baratos e pouco desejáveis. Um superesportivo elétrico era, naquele contexto, uma declaração de guerra.

O mundo de 2026 é outro. Em 2025, a BYD vendeu cerca de 2,26 milhões de carros elétricos a bateria, enquanto a Tesla entregou 1,64 milhão de veículos, uma queda de aproximadamente 8%. No segundo trimestre deste ano, a chinesa voltou a abrir vantagem: 557 mil elétricos contra 480 mil da americana.

A diferença também aparece no desempenho. Montadoras chinesas já colocam na rua sedãs e SUVs elétricos com mais de 1.500 cavalos. A potência absurda, que em 2017 era o grande trunfo do Roadster, deixou de ser raridade. O que era espetáculo virou ficha técnica.

Aí está o paradoxo. O primeiro Roadster, de 2008, montado sobre o chassi de um Lotus Elise, cumpriu uma missão histórica: provou que um carro elétrico podia ser desejável. Cumpriu tão bem que o mercado inteiro aprendeu a lição e, em boa parte, passou a fazer melhor e mais barato. O novo Roadster parece querer provar algo que já foi provado.

Talvez por isso a montadora de Musk tenha apelado para o voo. Mas o detalhe que mais me chamou atenção na apresentação foi justamente esse: o carro que “voou” era controlado remotamente, sem ninguém dentro. E a produção, segundo a empresa, deve começar só entre 2027 e 2028. Ou seja, mais uma promessa embrulhada numa demonstração.

Há, porém, uma leitura mais interessante do que a da simples obsolescência. Talvez o Roadster nem esteja competindo no mercado de elétricos. A Morningstar estima vendas de cerca de 2 mil unidades por ano, uma gota diante do 1,6 milhão de carros que a marca vendeu no ano passado. Neste ano, a empresa ainda deixou de vender o Model S e o Model X para abrir espaço à produção dos robôs humanoides Optimus.

Olhando assim, o Roadster deixa de ser um produto e vira um símbolo. Ele é o último grande gesto de uma Tesla montadora, apresentado por uma Tesla que já quer ser outra coisa: empresa de inteligência artificial, de direção autônoma, de robótica. O carro voa, mas é o coração da companhia que já voou para outro lugar.

Seria injusto, claro, decretar o fracasso antes da hora. Produtos-vitrine têm valor real: a Ferrari vende pouquíssimos carros e, mesmo assim, é uma das marcas mais valiosas do mundo. E a Tesla já foi desacreditada antes, com o Model 3 e com a própria ideia de que elétricos seriam viáveis, e calou muita gente. Quem apostou contra Musk nessas ocasiões perdeu.

Ainda assim, o episódio me parece uma aula involuntária para qualquer empreendedor. Entre o anúncio e a entrega existe um intervalo que não é neutro. Enquanto você aperfeiçoa a promessa, o mercado não fica esperando: ele aprende, copia, barateia e muda as perguntas.

O Roadster foi anunciado para responder a uma pergunta de 2017: um elétrico pode ser o carro mais rápido e desejado do mundo? A resposta chegou em 2026, quando a pergunta já tinha mudado para algo como “quem consegue fazer elétricos bons, em escala, por um preço acessível?”. E essa pergunta, por enquanto, tem sotaque chinês.

No fim, talvez a reflexão mais valiosa não seja sobre carros. É sobre o tempo. Toda inovação tem uma janela em que ela é, de fato, nova. Quem demora demais para atravessá-la pode até chegar voando, mas corre o risco de pousar atrasado.

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