A Medicina nunca enxergou tão bem. Vemos estruturas de milímetros dentro do cérebro e calculamos riscos com precisão impressionante. Mas há um perigo silencioso nesse avanço: podemos começar a enxergar perfeitamente a doença e deixar de enxergar quem a possui.
Uma ressonância não sente medo. Uma tomografia não tem filhos. O paciente, sim.
Antes de perguntar o que aparece no exame, aprendi a perguntar quem é a pessoa diante de mim. Onde mora? Há um hospital perto de casa se algo der errado? Vive sozinha ou tem quem cuide dela? Em que acredita? O que teme e o que deseja preservar?
As respostas mudam o tratamento. A mesma lesão pode pedir condutas diferentes para quem mora ao lado de um centro especializado e para quem vive a horas de distância. Um dispositivo que exige ajustes frequentes pode ser ótimo para um e uma prisão para outro.
Uma recuperação longa depende de quem estará ao lado da cama. E a fé, que não substitui antibiótico nem cirurgia, muitas vezes é o que sustenta o paciente para atravessar o tratamento. Ignorá-la é enxergar só parte da pessoa.
É nesse ponto que entra a intuição. Talvez seja reconhecimento de padrões acumulados em anos de prática, talvez algo além disso. Eu a compreendo à luz da minha fé. Aprendi a ouvi-la sem obedecê-la cegamente. Muitas vezes ela não traz uma resposta, traz uma pergunta diferente. E uma pergunta diferente pode revelar um caminho que nenhum protocolo havia previsto.
Há, porém, um limite: a intuição pode sugerir uma pergunta; nunca nos libera da responsabilidade de procurar respostas. Não substitui estudo, exame, técnica nem consentimento. Só pode se afastar de um protocolo com responsabilidade quem o conhece profundamente.
Estatísticas descrevem grupos. Nós tratamos indivíduos. Diante de decisões difíceis, faço a mim mesmo uma pergunta simples: eu faria isso com minha mãe, minha esposa, meus filhos? Ela não substitui a ciência, mas diminui a distância entre quem recomenda o risco e quem terá de vivê-lo.
Tratar a doença sem perceber aquilo que sustenta o doente é uma forma incompleta de cuidar. A imagem pertence ao paciente. O paciente não pertence à imagem.
Dr. Rodrigo Fagundes de Moraes (CRM-CE 14336 | RQE 5983) é neurocirurgião e autor do livro “Fé, Intuição e Neurocirurgia Fora da Caixa”.
