iFood compra a Caju, a startup que democratizou o vale-refeição

Pioneira em juntar vários benefícios num só cartão, a Caju passa para as mãos do iFood em uma transação de aproximadamente R$ 1 bilhão

Foto Reprodução Internet

O iFood anunciou na terça-feira (20) a compra da Caju, uma das startups que mais cresceram no mercado de vale-refeição e vale-alimentação no Brasil. O valor não foi revelado oficialmente, mas o mercado estima que a negociação tenha ficado entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão. Com a aquisição, o iFood Benefícios, braço de benefícios corporativos do iFood, deve dobrar de tamanho.

Para entender o que o iFood está levando, vale voltar a 2020, quando a Caju foi fundada. A proposta da startup era criar um único cartão, com bandeira Visa, que reunisse diferentes benefícios (refeição, alimentação, saúde, educação) em carteiras que o próprio trabalhador pudesse acompanhar pelo celular.

Eu sei que agora, quase sete anos depois, isso parece meio óbvio. Mas ressalto que, naquele momento, o setor atuava na contra-mão dessa proposta. A maioria das empresas de benefícios limitava o uso do crédito apenas às próprias maquininhas – e, por consequência, em seus estabelecimentos credenciados. Ou seja, antes de sair pra comer, o trabalhador precisava saber onde o cartão era aceito.

Com a bandeira Visa e o controle pelo aplicativo, o benefício ficou mais parecido com dinheiro: mais lugares para usar, mais clareza sobre o saldo, mais liberdade para decidir como gastá-lo.

Os tempos mudaram e os números da Caju também

Em 2022, a empresa tinha cerca de 13 mil empresas clientes. Hoje são mais de 70 mil, com 1,3 milhão de trabalhadores e algo como R$ 1,3 bilhão movimentados por mês. A empresa não divulga a receita, mas as estimativas de mercado giram em torno de R$ 450 milhões por ano.

Foi essa base, construída em seis anos, que atraiu o iFood. Agora, as duas operações somadas terão cerca de 135 mil empresas e 3 milhões de trabalhadores (atualmente, o Ifood Benefícios possui 65 mil clientes e 1,7 milhão de usuários).

Porém, antes de sair do papel, a compra precisa ser aprovada pelo Cade, que avalia os efeitos sobre a concorrência, e pelo Banco Central, já que envolve um meio de pagamento. A conclusão está prevista para 2027 e, até lá, as duas empresas seguem funcionando separadamente.

O interesse do iFood pela área, aliás, não é novo. Segundo a imprensa de negócios, a empresa já tinha procurado a Caju antes, sem sucesso. Em 2025, chegou a negociar também a compra da Alelo, controlada por Bradesco e Banco do Brasil, num negócio que poderia passar de R$ 5 bilhões (os bancos negaram ter recebido proposta). Como a conversa não avançou, o iFood voltou à Caju.

A estratégia de ponta a ponta

A aquisição faz parte do plano de R$ 24 bilhões em investimentos no Brasil que o iFood anunciou em setembro.

O momento do setor também ajuda a explicar o negócio. Desde o fim de 2025, novas regras do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) limitaram as taxas cobradas de restaurantes e supermercados e estão abrindo, aos poucos, o mercado para que cartões de operadoras diferentes passem nas mesmas maquininhas.

Para quem recebe e para quem aceita o vale, isso tende a significar mais opções. Para as empresas de benefícios, significa ganhar menos em cada transação, e quem tem mais clientes sai na frente.

Há ainda uma lógica comercial evidente. O cartão da Caju já é aceito no app do iFood, e pedir comida pelo celular é um dos usos mais comuns do vale-refeição. Ao comprá-la, o iFood reforça sua presença nas duas pontas da mesma transação: é ele quem fornece o benefício ao trabalhador, por meio da empresa contratante, e é ele quem oferece um dos principais lugares para gastá-lo, com mais de 500 mil estabelecimentos parceiros.

A companhia, inclusive, já usa esse argumento para vender o iFood Benefícios para as empresas: segundo a companhia, o saldo do vale rende até 40% mais dentro do aplicativo, pela variedade de restaurantes.

E o reforço chega numa hora oportuna. No delivery, seu negócio principal, o iFood passou a enfrentar a concorrência da Keeta, empresa da chinesa Meituan que chegou ao Brasil. Ter por perto o vale-refeição de 3 milhões de trabalhadores ajuda a garantir o cliente antes mesmo de ele abrir o app para escolher o almoço.

Para quem recebe o benefício, a mudança deve passar despercebida no começo: o cartão continua no bolso, o saldo continua no celular. A diferença, se vier, vai aparecer nos detalhes, nas ofertas e nos lugares onde o saldo rende mais.

Resta saber agora como o consumidor vai se comportar tendo a liberdade de passar o cartão em qualquer maquininha, mas com um incentivo cada vez maior para gastá-lo num único aplicativo.