O investimento em IA não para de crescer (e, ironicamente, a nossa carga de trabalho também)

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Na semana em que a Tractian virou unicórnio e a OpenAI negocia captar a US$ 1,25 trilhão, uma pesquisa com 1.455 profissionais indica que a tecnologia não está encurtando o expediente. Ela está aumentando o quanto cada pessoa consegue, e se espera que consiga, entregar.

Nesta semana, o Web Summit divulgou seu relatório anual sobre o setor de tecnologia, feito com 1.455 profissionais da área. E uma resposta chama atenção: 59% dizem que a inteligência artificial aumentou a carga de trabalho. Só 20% relatam alívio, e outros 20% não perceberam diferença.

Confesso que o número me deixou curioso, porque reconheci nele a minha própria rotina. Uso IA para pesquisar, organizar ideias e revisar textos (e economizo tempo em quase tudo). Mesmo assim, não me lembro da última semana em que encerrei o expediente mais cedo.

Daí a pergunta que quero propor hoje: a IA nos faz trabalhar menos ou nos torna tão mais produtivos que, no fim, acabamos trabalhando mais?

A promessa de Keynes

A dúvida é antiga. Em 1930, o economista John Maynard Keynes escreveu um ensaio sobre as possibilidades econômicas dos seus netos. Previu que, em cerca de cem anos, a tecnologia permitiria uma semana de 15 horas.

Faltam quatro anos para 2030 e o prazo dele expirar. A produtividade cresceu muito ao longo do século, mas a jornada não caiu na mesma proporção. Keynes acertou o que as máquinas seriam capazes de fazer e errou o que faríamos com o tempo que elas nos dariam a mais.

Um estudo publicado em fevereiro deste ano ajuda a entender por quê. As pesquisadoras Aruna Ranganathan e Xingqi Maggie Ye, da escola de negócios Haas, da Universidade da Califórnia em Berkeley, acompanharam por oito meses uma empresa de tecnologia americana com cerca de 200 funcionários, todos com amplo acesso a ferramentas de IA.

O resultado, publicado na Harvard Business Review, foi que as pessoas passaram a trabalhar mais rápido e por mais tempo, muitas vezes sem que ninguém pedisse.

O aumento apareceu de três formas. Profissionais assumiram tarefas que antes eram de outras áreas, como gerentes de produto escrevendo código. O expediente começou a invadir intervalos que antes eram de descanso. E cada um passou a tocar várias frentes ao mesmo tempo, conferindo respostas da máquina o dia inteiro.

Quando uma tarefa fica mais fácil, a tendência é emendar outra no espaço livre. Aos poucos, o esforço extra vira o normal esperado (e a régua sobe para todos).

É justo, porém, ouvir o outro lado. Em um estudo do ano passado, os economistas Anders Humlum e Emilie Vestergaard analisaram cerca de 25 mil trabalhadores dinamarqueses de 11 profissões expostas à IA. A economia média de tempo foi de 2,8%, pouco mais de uma hora numa semana de 40 horas, e não houve mudança relevante nem nos salários nem nas horas trabalhadas.

Para 8,4% deles, surgiram tarefas novas, como revisar o que a máquina produziu. Talvez o efeito da IA no dia a dia seja menor do que o entusiasmo e o medo sugerem.

O relatório do Web Summit também traz uma boa notícia: 55% dos entrevistados dizem que a IA fortalece seu pensamento crítico, índice que chega perto de 70% na América Latina. A preocupação está em outro ponto. Para 42%, haverá menos vagas de entrada nos próximos dois anos; entre investidores, a fatia sobe para 58%. Se cada profissional experiente passa a entregar mais, a conta tende a recair sobre quem ainda está começando.

A mais nova unicórnio de AI

Na quinta-feira (22), a brasileira Tractian anunciou uma rodada de US$ 130 milhões que a levou a valer US$ 1,4 bilhão – agora, a startup de IA mais valiosa da América Latina.

Fundada em 2019 por Igor Marinelli e Gabriel Lima, a empresa instala sensores que captam vibração e ruído dos equipamentos, e uma camada de IA aponta a causa do problema e sugere o que fazer.

Hoje a Tractian atende mais de 2 mil plantas industriais, de Coca-Cola e Embraer a Suzano, e tem receita anualizada perto de US$ 100 milhões, metade dela nos Estados Unidos. Segundo um estudo de caso da Nvidia, a base de clientes evita uma falha de máquina a cada 15 minutos, em média. O mesmo material estima que paradas não planejadas custam cerca de US$ 1,4 trilhão por ano aos maiores fabricantes do mundo.

Na fábria, ganhar produtividade tem outro significado. O técnico de manutenção continua trabalhando, mas troca o conserto às pressas no meio da madrugada pelo reparo planejado. Resta saber se a meta dele também também aumentará para acompanhar o novo desempenho das máquinas.

O mercado, por sua vez, não dá sinais de desaceleração. A rodada da Tractian saiu na mesma semana em que a OpenAI, segundo a imprensa americana, negocia uma captação que a avaliaria em US$ 1,25 trilhão. Há muito dinheiro sendo investido para fazer o trabalho andar mais rápido. Bem menos atenção vai para a decisão sobre o que fazer com o tempo que sobra.

Talvez a IA, sozinha, não decida se vamos trabalhar menos. Ela nos devolve tempo, e o destino desse tempo depende das empresas, dos líderes e, em alguma medida, de cada um de nós. Keynes ainda tem até 2030 para acertar sua previsão.

Resta saber se, até lá, vamos aprender a parar quando a tarefa termina.