A Anistia Internacional anunciou que levará à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) denúncias contra o presidente da Argentina, Javier Milei, por declarações dirigidas a jornalistas. A decisão ocorre após o mandatário afirmar que profissionais responsáveis por reportagens investigativas contra seu governo deveriam “queimar na fogueira”.
Segundo informações da Agência Brasil, publicadas nesta terça-feira (27), as declarações foram feitas após a Justiça argentina arquivar, na sexta-feira (23), o caso conhecido como criptogate. A investigação envolvia suspeitas de irregularidades relacionadas à criptomoeda $Libra e possíveis ligações de Milei e de sua irmã, Karina Milei, com o projeto.
O presidente havia utilizado suas redes sociais para divulgar o ativo digital. No entanto, o juiz federal Marcelo Martínez de Giorgi concluiu que não houve delitos no caso analisado.
Declarações contra jornalistas motivaram denúncia
Durante um discurso, Milei mencionou nominalmente cinco jornalistas que acompanharam as investigações: Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrigues, Natalia Volosin e Luis Novaresio.
O presidente dirigiu críticas aos profissionais, utilizando expressões como “corruptos” e “mercenários da mentira”. Em seguida, afirmou que seus críticos deveriam “queimar na fogueira”.
Nas redes sociais, Milei também declarou ter sido alvo de uma operação política e midiática destinada a prejudicar sua Presidência.
Para a Anistia Internacional, as manifestações ultrapassam o campo da crítica à cobertura jornalística e podem contribuir para um ambiente de intimidação.
A organização considera que as declarações representam uma escalada na hostilidade contra a imprensa argentina, especialmente por terem partido da principal autoridade política do país.
Anistia Internacional alerta para riscos à liberdade de imprensa
Mariela Belski, diretora-executiva da Anistia Internacional na Argentina, afirmou que a exposição pública de jornalistas pelo presidente pode aumentar os riscos enfrentados pelos profissionais.
Segundo ela, o cargo presidencial exige responsabilidade na proteção da liberdade de expressão e na garantia de condições para o exercício do jornalismo.
A entidade também destaca que ataques recorrentes à imprensa podem estimular a autocensura e dificultar a circulação de informações de interesse público.
Além disso, a Anistia Internacional pretende apresentar os episódios aos organismos internacionais como parte de seu trabalho de acompanhamento da liberdade de expressão na Argentina.
Argentina registrou 278 ataques a jornalistas em 2025
A organização fundamenta suas preocupações em dados do Fórum de Jornalismo Argentino (Fopea), responsável por monitorar as condições de trabalho da imprensa no país.
De acordo com o levantamento, foram registrados 278 episódios de ataques a jornalistas em 2025. O número representa um crescimento de 55% em relação a 2024 e é o maior desde o início da série histórica, em 2008.
Ainda segundo o relatório, Javier Milei foi identificado como autor de 119 episódios. O levantamento também contabilizou 139 ocorrências de discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições de acesso à informação.
Para a Anistia Internacional, esses números indicam a necessidade de ampliar os mecanismos de proteção aos profissionais de comunicação.
Entidades internacionais e sindicatos também se manifestam
A situação da liberdade de imprensa na Argentina já havia sido discutida em novembro de 2025, durante uma audiência da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Na ocasião, organizações de direitos humanos e entidades jornalísticas relataram episódios de violência durante manifestações, assédio judicial e ataques virtuais. A CIDH solicitou informações ao governo argentino e demonstrou interesse em visitar o país.
Agora, a Federação Internacional dos Jornalistas (FIP) também se manifestou sobre as declarações de Milei.
À Agência Brasil, a presidente da entidade, Zuliana Lainez, alertou que episódios dessa natureza podem contribuir para um ambiente de intimidação e prejudicar o exercício do jornalismo.
O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires também divulgou uma nota de repúdio, cobrando uma reação das instituições diante das declarações presidenciais.
Jornalista brasileiro também enfrentou restrições na Argentina
O debate sobre liberdade de imprensa no país ocorre ainda após o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr. ser impedido de entrar na Argentina, em 12 de outubro.
Conhecido por suas críticas ao governo Milei, ele teve sua residência permanente cancelada pelas autoridades migratórias e recebeu uma proibição de reingresso por cinco anos.
O profissional acompanha a política argentina e produz conteúdos sobre os impactos econômicos e sociais das medidas adotadas pelo governo.
Diante dos episódios recentes, a Anistia Internacional reforça a importância de garantir que jornalistas possam investigar, questionar autoridades e divulgar informações sem sofrer intimidações.
A apresentação das denúncias à ONU e à CIDH busca levar a discussão sobre a liberdade de imprensa argentina às instâncias internacionais de direitos humanos.
Fontes: Agência Brasil
