Em 2015, quando ainda comandava a aceleradora Y Combinator, Sam Altman soltou uma frase que até hoje circula pela internet: a inteligência artificial provavelmente levaria ao fim do mundo, “mas, enquanto isso, grandes empresas serão criadas”.
No fim daquele ano, ele cofundaria a OpenAI. Na época, a frase soou como piada de palco. Onze anos depois, parece mais um plano de negócios.
Na segunda-feira (26), a Anthropic, dona do Claude e principal rival da OpenAI, protocolou o pedido para abrir capital na Nasdaq, com o código ANT. As estimativas de avaliação vão de US$ 1,5 trilhão a US$ 1,75 trilhão, o que pode transformá-la na maior estreia da história de Wall Street.
Entre os fatores de risco do prospecto, ao lado dos de praxe (concorrência, regulação), aparece um que raramente se lê num documento desse tipo: sistemas avançados de IA, sem salvaguardas adequadas, poderiam representar riscos “catastróficos ou existenciais” para a humanidade.
Traduzindo: a companhia pede dinheiro ao mercado e avisa, no mesmo papel, que a tecnologia que vende pode, no limite, ameaçar quem compra a ação.
A pergunta que fica é menos óbvia do que parece. Um alerta desses espanta o investidor ou o atrai?
O alarme que veio de dentro
O aviso não nasceu no prospecto. Em 8 de setembro, o britânico Jacob Coxon, de 27 anos, que passou três anos treinando modelos na OpenAI e depois na Anthropic, anunciou no X que estava deixando a empresa.
Disse que os dois laboratórios correm rumo a uma superinteligência capaz de se aperfeiçoar sozinha, “apostando com as nossas vidas“, e lembrou que há quem, dentro do setor, considere possível a tecnologia matar todos nós até o fim da década. As publicações alcançaram mais de 100 milhões de pessoas em uma noite.
O detalhe mais curioso veio em seguida. Evan Hubinger, que lidera a área de ciência de alinhamento da Anthropic (e continua lá), respondeu em público: na opinião pessoal dele, a chance de isso acontecer nos próximos dez anos passa de 10%.
Sete semanas depois, a mesma Anthropic entregou o prospecto.
Não acredito que Coxon tenha saído para valorizar a ex-empregadora, nem que Hubinger tenha escrito pensando no IPO. Mas mensagens produzem efeitos que independem da intenção de quem fala. E o efeito colateral do apocalipse talvez tenha sido o de uma demonstração de força.
Pense pelo lado de quem investe. Se os próprios pesquisadores da casa acreditam que aquela tecnologia é capaz de acabar com a humanidade, imagine o que ela pode fazer por um contrato, uma fábrica, um departamento jurídico inteiro.
Quem não quer estar perto da empresa que, supostamente, tem nas mãos algo tão poderoso?
Perigoso demais para lançar
O roteiro tem precedente. Em fevereiro de 2019, a OpenAI (onde Dario Amodei, hoje CEO da Anthropic, ainda trabalhava) anunciou que não liberaria a versão completa do GPT-2. O motivo: o modelo escrevia textos tão convincentes que poderia alimentar notícias falsas em massa.
A decisão virou manchete no mundo inteiro e apresentou o laboratório a quem nunca tinha ouvido falar dele. Em novembro do mesmo ano, a versão completa foi publicada, e a internet seguiu como antes.
O historiador da tecnologia Lee Vinsel batizou o fenômeno, em 2021, de “criti-hype”: a crítica que, ao exagerar o poder de uma inovação, acaba fazendo propaganda dela. O medo, nesse caso, funciona como vitrine.
Ajuda, claro, que os números acompanhem a fama. No primeiro semestre de 2026, a receita da Anthropic foi de US$ 16,3 bilhões, contra US$ 1,2 bilhão um ano antes. A avaliação, que era de US$ 183 bilhões há pouco mais de um ano, chegou a US$ 965 bilhões numa rodada em maio.
O prejuízo do semestre, de US$ 80,7 bilhões, assusta à primeira vista, mas a empresa o atribui a um ajuste contábil ligado a acordos de financiamento, e não à operação em si.
Seria injusto, porém, reduzir tudo a marketing. Os riscos têm registro concreto: neste ano, OpenAI e Anthropic relataram, com uma semana de diferença, que modelos escaparam de ambientes de teste e acessaram sistemas reais sem autorização. E o próprio Hubinger ressaltou que vê pouco perigo nos modelos atuais; o que o preocupa é o que vem depois.
O medo também tem teto. Em agosto, investidores falavam em US$ 2 trilhões ou mais para a estreia. Hoje, com o índice Nasdaq 100 acumulando queda de mais de 7% desde o recorde de 6 de outubro, a conversa recuou para a faixa de US$ 1,5 trilhão a US$ 1,75 trilhão.
Quem melhor traduziu essa ambiguidade foram os bancos. No mesmo dia do prospecto, Bank of America, Blackstone, Citi e Morgan Stanley anunciaram US$ 63 bilhões para comprar chips da Broadcom e alugá-los à Anthropic, com entregas a partir de 2027.
A negociação levou quase dois meses. As instituições só assinaram depois de conseguir juros mais altos e proteção contra um eventual calote, e a própria Broadcom garante até US$ 43 bilhões do valor dos equipamentos.
Para quem empresta, o fim do mundo não entra no contrato. Entra o risco de a conta não fechar.
Resta saber qual das duas leituras o investidor vai levar ao pregão em novembro: a do apocalipse, que impressiona, ou a dos bancos, que cobra juros.
O fim do mundo ainda não chegou, mas as grandes empresas, essas, já estão na fila da bolsa.
