Revista Poder

Por que uma startup de IA fundada há dois anos decidiu comprar um escritório centenário de advocacia?

A empresa de tecnologia Crosby, avaliada em US$ 400 milhões, fez uma oferta para comprar a marca da Weil Gotshal, tradicional escritório de Wall Street

Foto Reprodução Instagram

Por Filipe Callil

Há um ativo que nenhuma rodada de investimento consegue acelerar: o tempo.

Uma startup pode captar milhões, contratar engenheiros e treinar sistemas para revisar contratos em poucas horas. O que ela não pode fazer é acelerar o tempo de sua existência — pelo menos por enquanto.

Talvez por isso uma oferta recente chame tanta atenção.

Criada há cerca de dois anos, a Crosby (uma empresa que desenvolve soluções tecnológicas para o mercado jurídico) decidiu comprar a marca e parte dos dados internos da Weil, Gotshal & Manges, um dos escritórios de advocacia mais tradicionais de Wall Street, que se prepara para encerrar as atividades aos 95 anos de idade.

A conta ajuda a dimensionar o encontro. A startup foi avaliada em cerca de US$ 400 milhões na rodada mais recente. A Weil faturou mais de US$ 2 bilhões apenas em 2025.

Por que uma empresa tão jovem se interessaria por um sobrenome tão antigo?

Uma oferta pela marca

A Crosby não vende software para advogados. Ela é, de fato, um escritório: seus profissionais usam um sistema de IA desenvolvido internamente e supervisionam o resultado. A especialidade são contratos do dia a dia de empresas em crescimento, como acordos de confidencialidade, cobrados por documento (e não por hora).

A proposta pela Weil chegou na forma de uma carta de intenções. Os valores não foram divulgados e dependem de uma avaliação dos dados do escritório. Em paralelo, a Crosby tenta contratar parte dos cerca de 1.200 advogados da casa. Até aqui, nada foi fechado.

É importante dizer que a IA não derrubou a Weil. Em 2025, cada sócio com participação no negócio teve, em média, US$ 5,6 milhões de lucro.

O que levou o escritório a esse ponto foi uma espécie de corrida bancária (só que de advogados). Em setembro, Michael Aiello, seu principal gerador de negócios, trocou a Weil pela concorrente Cravath, levando outros sócios. As saídas se multiplicaram, a negociação de uma fusão com a Willkie Farr & Gallagher fracassou e, em 28 de outubro, a direção recomendou a dissolução. A decisão final cabe aos sócios.

A história da Weil começa com uma falta de portas abertas. Frank Weil, Sylvan Gotshal e Horace Manges, três advogados judeus formados em Columbia, fundaram o escritório em 1931 depois de encontrarem barreiras em Nova York por causa de sua origem. Décadas mais tarde, a casa estaria nas falências de Enron, General Motors e Lehman Brothers.

Um percurso ajuda a explicar a oferta

Conforme a IA barateia a produção de um contrato, o documento em si tende a valer menos. O que continua caro é a confiança de quem o assina.

O diretor jurídico de uma empresa no meio de uma fusão bilionária não contrata apenas um texto bem escrito. Ele contrata a tranquilidade de saber que aquele nome já atravessou crises maiores que a dele. Reputação, afinal, é o registro acumulado de muitas decisões difíceis tomadas diante de alguém, e esse histórico nenhum modelo produz.

Não há como saber o que a Crosby faria com a marca. Mas, ainda que sem intenção, a proposta soa como um reconhecimento curioso vindo do setor que promete substituir o trabalho intelectual: a parte mais difícil de automatizar talvez não seja o trabalho.

Há, é claro, um bom contraponto.

Boa parte do prestígio da Weil caminhava sobre duas pernas. E elas já estão indo para os concorrentes. Sem os advogados que o sustentaram, o nome pode ser pouco mais que uma placa bonita na porta. Os dados também têm limites: informações de clientes são protegidas por sigilo, e o interesse mais plausível recai sobre materiais internos, como modelos de contratos.

Por outro lado, marcas costumam sobreviver às empresas que as criaram. A Arthur Andersen ruiu depois do escândalo da Enron, no início dos anos 2000. Em 2014, uma firma tributária com antigos profissionais da casa voltou a usar o nome e, três anos depois, foi à Justiça para disputá-lo com outro grupo. Um sobrenome marcado por um dos maiores escândalos corporativos da história ainda valia uma briga.

O curioso é que, em 1931, a Weil também era uma novata sem passado. Seu nome ainda não valia nada, e foram precisas décadas de trabalho para que passasse a valer.

Resta saber se a Crosby conseguirá comprar pronto o que os fundadores da Weil só puderam construir com o tempo.

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