Por Filipe Callil
Em outubro de 1996, uma reunião entre o fundador de uma startup e um executivo de marketing da Compaq deixou um dos primeiros registros de uma nova expressão: “cloud computing”.
Os engenheiros já desenhavam a rede como uma nuvenzinha nos diagramas. Faltava transformar o rabisco em slogan. Deu certo como poucos na história da tecnologia.
Em 2006, Eric Schmidt, então CEO do Google, levou o termo a uma conferência do setor e, no ano seguinte, Amazon, Microsoft e IBM ajudaram a espalhá-lo.
A palavra tinha um talento especial: fazia um prédio desaparecer. Galpões, geradores, cabos e sistemas de resfriamento passaram a soar como algo leve, que fica lá em cima e não incomoda ninguém.
Trinta anos depois, com o avanço acelerado das empresas de inteligência artificial, o prédio reapareceu. Desta vez, na cédula de votação.
Nesta terça-feira (3), além de escolher congressistas, eleitores do estado de Ohio, nos EUA, decidiram sobre 21 medidas ligadas a data centers, em 18 municípios. Pela contagem ainda não oficial, ao menos 14 aprovaram proibições ou restrições.
Em Trenton, cidade de cerca de 14 mil habitantes, o veto a instalações acima de 25 megawatts passou com cerca de 80% dos votos. Em Ashville, 81,65% derrubaram a resolução que abria caminho para dois prédios da EdgeConneX, apesar da doação de US$ 3,5 milhões que a empresa destinaria à vila.
A tecnologia que prometia não pesar nada agora ocupa terreno, pede água e disputa a rede elétrica da cidade. Como se convive com um vizinho assim?
Da nuvem à fazenda
A nuvem funcionou por um motivo simples: quem usava o serviço raramente morava perto dele. O cliente estava em São Paulo, Lisboa ou Nova York. O prédio ficava num terreno que quase ninguém conhecia.
A IA desfez esse arranjo pelo tamanho. O projeto de Ashville previa, além dos dois prédios, uma usina a gás, tudo em cerca de 79 hectares. Em Utah, um complexo aprovado neste ano ocuparia cerca de 16 mil hectares, com até 9 gigawatts de potência.
Depois de duas décadas de nuvem, a expressão antiga voltou a fazer sentido. A inovação mudou de endereço, do céu para o chão. E o termo “fazendas de servidores” voltou a fazer sentido.
E é aí que aparece a contradição.
A tecnologia mais avançada do momento chega à cidade pequena com problemas de outro século: gás queimado, disputa por terra, conta de luz. Na corrida por eletricidade, alguns operadores nos EUA já recorrem a motores de avião aposentados, adaptados para gerar energia.
Em 2020, a Microsoft prometeu se tornar carbono negativa até 2030. Em seu relatório deste ano, as emissões aparecem 58% acima da base de 2020, com a expansão dos data centers entre as causas.
Ou seja, quem traz o futuro para o celular traz o passado para o quintal.
Em março, o instituto de pesquisas americano Gallup perguntou à população pela primeira vez o que ela achava de um data center de IA na própria região: sete em cada dez foram contra. Para uma usina nuclear, a rejeição foi de 53%.
Sim, a rejeição às “fazendas de servidores” foi maior do que às usinas nucleares.
Direita e esquerda em tilt
Nos jogos digitais, “tilt” é o momento em que o jogador perde o equilíbrio e passa a jogar contra si mesmo. A política americana parece ter entrado nesse estado.
À direita, o choque é entre duas fidelidades: a liberdade de quem quer construir e o receio de quem quer defender a cidade pequena.
Em agosto, Donald Trump chamou de erro o freio imposto no Texas, onde, segundo ele, o setor “pode ser maior que o petróleo”. Quem havia mandado suspender novas aprovações era o governador do estado, o também republicano Greg Abbott.
O mapa aperta o nó: 75% dos data centers em construção estão em estados predominantemente republicanos. A obra chega primeiro ao quintal do eleitor conservador.
À esquerda, o desconforto é outro.
O progressista costuma se apresentar como aliado da ciência e do futuro, mas também da comunidade e do clima. Em março, Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez propuseram suspender a construção até que existam proteções nacionais.
O senador democrata Mark Warner chamou a ideia de “idiotice” e citou a vantagem que uma pausa daria à China. A pesquisadora Holly Jean Buck, escrevendo numa revista socialista, chamou a moratória de enorme erro estratégico da esquerda.
Cada lado se pegou repetindo as falas do outro. A republicana Nancy Mace pede uma pausa estadual de um ano, enquanto um democrata recorre à competição com a China para defender a obra. Talvez a velha régua não meça este caso. Ela separa quem confia no mercado de quem confia no Estado.
Mas o que essa notícia tem a ver com o Brasil?
A reação também tem seus limites (e contradições). Afinal, muitos dos que votaram contra devem usar alguma IA todos os dias — e a resposta que chega ao celular precisa sair de algum lugar.
Se não sair de Trenton, vai sair da cidade vizinha. Ou do estado vizinho. Ou até mesmo do país vizinho. A pesquisadora Holly Jean Buck faz esse alerta: uma proibição nacional empurraria os projetos para regiões com menos organização e regras mais fracas.
E é aí que a questão também se torna uma preocupação no Brasil.
Em Caucaia (CE), perto do Porto do Pecém, o data center ligado ao TikTok, com investimento estimado em R$ 50 bilhões, enfrenta queixas do povo Anacé sobre falta de consulta prévia, num município que esteve em situação de emergência em 16 dos últimos 21 anos.
Entre o sim e o não, há um meio de caminho. Um estudo da consultoria Scioto Analysis comparou cinco cenários para Ohio. O pior era manter tudo como está, e o melhor nem era proibir, e sim fazer os data centers gerarem a própria energia, quase toda renovável.
O cálculo depende de premissas sobre emprego, mas sugere que o debate talvez seja menos sobre a existência do prédio e mais sobre as condições em que ele chega.
Por anos, o Vale do Silício cresceu com um lema informal: é melhor pedir perdão do que pedir permissão. Mas, quando o assunto é quem vai morar ao lado, é melhor bater na porta antes.