Depois de mais de uma década atuando em projetos de interiores e hospitalidade, com passagens por cidades como Londres, Madrid e Riad, Guilherme Mendes decidiu transformar sua experiência em um negócio próprio. À frente do estudio_mendes, o designer estreia no mercado de mobiliário autoral com a Coleção Mosaico, que reúne peças produzidas artesanalmente em São Paulo, com madeira maciça e tecidos naturais.
Com uma proposta que valoriza o trabalho manual e a identidade do design brasileiro, Guilherme aposta em uma produção de pequena escala, com planos de ampliar o portfólio e, futuramente, alcançar o mercado internacional. A Revista Poder conversou com o designer sobre empreendedorismo, suas referências internacionais, os desafios de construir uma marca de alto padrão e os próximos passos do estudio_mendes.
Depois de mais de uma década trabalhando com projetos de interiores e hospitalidade, inclusive em mercados internacionais, o que motivou você a criar uma marca própria de mobiliário? Em que momento percebeu que era hora de investir no próprio negócio?
Acho que essa vontade sempre esteve comigo. Nos projetos, o que mais me prendia era o móvel. Eu podia passar horas discutindo a altura de um assento ou a curva de um braço de poltrona. Na hospitalidade, acabei cuidando justamente do desenvolvimento de mobiliário, e foi ali, desenhando peças para hotéis e para projetos de outras pessoas, que o sonho de ter uma coleção minha ganhou forma.
Mas não teve um estalo. Foi mais uma sensação que foi crescendo, até o dia em que percebi que já tinha bagagem para fazer do meu jeito. Eu costumo dizer que, depois de muito tempo realizando os sonhos de outras pessoas, chegou a hora de compartilhar um pouco do meu. O estudio_mendes não é uma ruptura com tudo o que eu fiz antes. É uma continuidade.
Você passou por cidades como Londres, Madrid e Riad, além de trabalhar em estúdios como Rockwell Group e 1508 London. Como essa experiência internacional influenciou sua visão sobre o mercado de mobiliário de alto padrão e o comportamento dos consumidores?
Morar e trabalhar fora me ensinou que luxo muda de cara de um lugar para o outro. Em Riad, é generosidade, é receber bem, uma certa opulência. Em Londres e em Madrid, é muito mais discreto, ligado à história, à peça que atravessa gerações. Ver isso de perto me ajudou a entender o que eu queria fazer e, principalmente, o que eu não queria.
O que eu vejo hoje no cliente de alto padrão, aqui e lá fora, é um certo cansaço da peça perfeita, igual em todo lugar. Quem pode escolher quer saber quem fez, de onde veio, quanto tempo levou. Quer um objeto com alma, que conte uma história dentro de casa. E foi estando fora que eu comecei a enxergar melhor o valor do que a gente tem no Brasil: a madeira, os ofícios, o jeito de fazer com as mãos.
A Coleção Mosaico marca a estreia do estudio_mendes no mercado. Quais foram as principais decisões de design, materiais e produção que orientaram o desenvolvimento da coleção? E qual é o diferencial competitivo que você pretende construir para a marca?
Guilherme Mendes: A primeira decisão foi a mais difícil: aceitar que nada precisava ser igual. No estofado, cada módulo tem a sua medida, a sua curva, e entre um e outro existe um pequeno respiro. Na madeira, os blocos maciços se encaixam sem querer ser idênticos. O mosaico não é um desenho aplicado por cima, está na própria construção da peça.
Nos materiais, eu quis ser bem honesto e fiquei só com madeira maciça e tecidos naturais. É cumaru, bouclé e linho. Sem revestimento, sem nada que finja ser outra coisa. A madeira vai escurecer com o tempo, o tecido vai ganhar marcas de uso, e eu acho isso bonito.
E toda a produção é feita à mão em São Paulo, numa oficina pequena onde a marcenaria e a tapeçaria dividem o mesmo espaço. Eu estou lá o tempo todo, acompanhando, ouvindo. Muita coisa no projeto mudou por causa dessas conversas.
O diferencial, para mim, é justamente esse: peças autorais, feitas à mão, que nunca saem iguais. Não quero competir em volume. Quero que a pessoa olhe para um sofá do estudio_mendes e saiba que ele foi pensado e feito por gente, e que existe só aquele.
A produção brasileira e o trabalho artesanal são pilares do estudio_mendes. Como você enxerga o potencial do design brasileiro no mercado de alto padrão, tanto no país quanto no exterior? Quais são os planos de crescimento e os próximos passos da marca?
Eu acredito muito no design brasileiro. Lá fora, ele é respeitado há muito tempo, mas às vezes a gente mesmo demora a dar o devido valor. Temos madeiras incríveis e artesãos com um conhecimento que está ficando raro no mundo. Isso, num mercado que cada vez mais procura autenticidade, vale muito.
Quanto ao crescimento, quero ir devagar, sem pressa. A ideia é lançar uma coleção por ano, com curadoria, sem pensar em quantidade. A Mosaico ainda vai ganhar novas peças, e já estou desenhando uma linha para áreas externas, irmã dela, com a mesma linguagem orgânica.
O mercado internacional está, sim, nos planos. Passei muitos anos fora e levar a marca para lá é, de certa forma, reencontrar essa parte da minha história. Mas a produção vai continuar aqui. O sonho é fazer no Brasil, com mãos brasileiras, e levar isso para o mundo.
