O vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, deverá assumir o comando do país após a renúncia anunciada por Santiago Peña nesta quinta-feira (5). A mudança no governo ocorre em meio a uma crise política e financeira provocada pelo fechamento do banco digital Ueno, que deixou milhares de correntistas sem acesso ao próprio dinheiro.
A Câmara dos Deputados paraguaia rejeitou o pedido de impeachment contra Alliana, permitindo que ele permaneça na linha de sucessão presidencial. O vice havia sido incluído na tentativa de afastamento apresentada por parlamentares, mas não recebeu o mesmo tratamento político destinado a Peña.
A renúncia do presidente foi anunciada horas depois de o Congresso iniciar uma sessão extraordinária para discutir sua destituição. Peña enfrentava acusações relacionadas à crise bancária e havia perdido o apoio de integrantes da oposição e de sua própria base governista.
Com a decisão dos deputados, Alliana deverá assumir a Presidência conforme os procedimentos previstos na Constituição paraguaia.
Congresso rejeita afastamento de Pedro Alliana
A decisão de preservar o mandato do vice-presidente ocorreu durante uma sessão marcada por discussões sobre a responsabilidade política do governo na crise do sistema financeiro.
O pedido de impeachment havia sido apresentado por 35 deputados e incluía tanto Santiago Peña quanto Pedro Alliana.
No entanto, os parlamentares decidiram rejeitar a acusação contra o vice, enquanto o processo relacionado ao presidente avançava.
A decisão permite que Alliana permaneça como sucessor constitucional de Peña, cujo mandato havia começado em 2023 e estava previsto para terminar em 2028.
O episódio representa uma mudança na condução política do país, já que a renúncia foi anunciada em um momento de isolamento do presidente dentro do próprio Partido Colorado.
Entre as lideranças que retiraram apoio ao governo estão Horacio Cartes, presidente da legenda, e Basilio Núñez, presidente do Congresso.
Santiago Peña renuncia após pressão política
Antes da decisão sobre o vice-presidente, Santiago Peña divulgou um vídeo anunciando sua saída do cargo.
Na declaração, afirmou que a renúncia tinha como objetivo preservar a estabilidade do Paraguai e evitar o agravamento das tensões institucionais.
O presidente também pediu desculpas aos cidadãos prejudicados pela crise bancária e reconheceu a insatisfação provocada pelo bloqueio de recursos.
Peña era alvo de críticas devido à sua antiga participação acionária no grupo proprietário do banco Ueno, instituição que entrou em processo de liquidação nesta semana.
A oposição o acusa de conflito de interesses, suposta manipulação de regras e possíveis irregularidades relacionadas a recursos previdenciários.
As acusações, entretanto, ainda dependem de apuração pelas autoridades competentes e não representam uma condenação judicial.
Fechamento do banco Ueno desencadeou crise
A instabilidade política ganhou força após o encerramento das atividades do banco digital Ueno, pertencente ao Grupo Vázquez.
A instituição fechou as portas na terça-feira (3), depois que o Banco Central do Paraguai iniciou seu processo de liquidação.
Segundo as informações divulgadas, a autoridade monetária identificou insuficiência de recursos para cobrir obrigações financeiras, relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao próprio banco.
O Ueno possuía aproximadamente 3 milhões de clientes e concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
O fechamento da instituição deixou milhares de correntistas sem acesso ao dinheiro e provocou manifestações na capital, Assunção.
Clientes passaram a cobrar explicações e medidas para recuperar os valores depositados.
A situação também gerou preocupação com a estabilidade de outras instituições financeiras, após relatos de falhas em aplicativos bancários.
A Associação de Bancos do Paraguai informou que o sistema financeiro continuava operando normalmente, apesar do aumento da demanda de clientes que buscavam transferir seus recursos.
Investigação envolve executivos e suspeitas de irregularidades
As autoridades paraguaias também iniciaram medidas judiciais relacionadas ao funcionamento do banco.
A Procuradoria apresentou acusações formais contra 27 pessoas ligadas à instituição financeira, enquanto executivos se entregaram após a emissão de mandados de prisão.
A Justiça determinou o bloqueio de bens dos investigados.
Parlamentares da oposição também questionaram a atuação do Banco Central, levantando suspeitas de que irregularidades teriam sido encobertas.
Peña, que foi acionista do grupo controlador do Ueno até março de 2025, negou a intenção de proteger eventuais responsáveis e afirmou que as irregularidades deveriam ser investigadas.
Antes de anunciar a renúncia, o presidente promulgou uma medida destinada a facilitar a recuperação dos recursos dos clientes prejudicados.
Mudança de governo ocorre em meio à instabilidade
Economista e ex-ministro da Fazenda, Santiago Peña chegou à Presidência do Paraguai em 2023 pelo Partido Colorado.
Durante seu governo, manteve relações diplomáticas com o Brasil e com os Estados Unidos, além de proximidade política com lideranças conservadoras da região.
A crise envolvendo o banco Ueno, entretanto, provocou a perda de sustentação parlamentar e culminou no anúncio de sua renúncia.
Com a rejeição do impeachment contra Pedro Alliana, o vice-presidente deverá assumir a responsabilidade de conduzir o Executivo durante o período restante do mandato, observados os procedimentos constitucionais.
A transição ocorre enquanto as autoridades investigam as operações do banco e buscam soluções para os clientes que continuam sem acesso aos recursos.
Os próximos desdobramentos dependerão da formalização da sucessão presidencial, da tramitação das medidas políticas contra Peña e do avanço das investigações financeiras.
