Criado em meio à pandemia, o Instituto Alimentando o Bem evoluiu de uma iniciativa emergencial para um projeto estruturado de desenvolvimento social. À frente da iniciativa, Emar Batalha compartilha, nesta entrevista, como o trabalho no Perequê tem promovido inclusão produtiva, moradia digna e protagonismo feminino — pilares que hoje sustentam a atuação do Instituto.
Emar, como nasceu o Instituto Alimentando o Bem?
O Instituto nasceu no início de 2020, em meio à pandemia, em um momento muito delicado para o Brasil. Começamos com ações emergenciais de distribuição de alimentos e itens de higiene básica para famílias em situação de vulnerabilidade.
Com o tempo, o que começou como uma resposta humanitária se estruturou em um projeto de desenvolvimento territorial, com foco na inclusão produtiva, na moradia digna e no protagonismo feminino como força de transformação social.
Quais são hoje as principais frentes de atuação do Instituto?
Nosso principal objetivo é promover a inclusão produtiva das mulheres do Perequê no mercado de trabalho, criando oportunidades reais de geração de renda e autonomia.
Além disso, nosso trabalho tem como base o desenvolvimento sustentável do Balneário do Perequê. Atuamos com oficinas de capacitação profissional para mulheres, atividades de contraturno escolar para crianças e adolescentes, atendimento psicossocial e programas habitacionais.
Temos uma equipe formada por assistentes sociais, psicóloga e pedagoga, que acompanham famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica, garantindo acesso a direitos e fortalecendo vínculos comunitários.
Como funciona o programa Morada Digna?
O programa Morada Digna nasceu após as fortes chuvas que atingiram a região, quando muitas famílias que viviam em áreas extremamente vulneráveis tiveram suas condições de moradia ainda mais agravadas. A partir dessa realidade, entendemos que não existe transformação social sem moradia digna.
Hoje atendemos 51 famílias, totalizando 156 pessoas, oferecendo aluguel social e acompanhando a transição das famílias que viviam em palafitas no mangue para casas seguras.
Além do impacto social, existe também um impacto socioambiental muito importante. Já retiramos cerca de 130 mil quilos de resíduos do mangue e plantamos 900 mudas de espécies nativas, contribuindo para a regeneração de um ecossistema que antes estava degradado.
Como a inclusão produtiva transforma a vida das mulheres atendidas?
A mulher é o pilar da nossa transformação social. Já capacitamos mais de 300 mulheres em oficinas e palestras, e cerca de 60 delas já geraram renda com os produtos desenvolvidos nos nossos projetos.
Investimos cerca de R$ 2 milhões na construção das mini-fábricas, que hoje contam com mais de 300 clientes cadastrados.
Mais do que gerar renda, desenvolvemos disciplina, comprometimento e oferecemos uma trilha formativa voltada ao empreendedorismo responsável. É um caminho de autonomia financeira, reconstrução da autoestima e fortalecimento do papel da mulher dentro da comunidade.
A Bem Cacau é um dos projetos mais conhecidos. Qual é o impacto dessa iniciativa?
A Bem Cacau nasceu como um desdobramento das ações emergenciais da pandemia e hoje se consolidou como um exemplo de empreendedorismo social.
As mulheres que atuam na produção fazem parte do projeto e participam de um processo de formação e geração de renda. Elas recebem capacitação técnica na produção artesanal de chocolates e são remuneradas pela produção realizada, mas não são funcionárias — são participantes do projeto de inclusão produtiva.
Mais do que uma fábrica, a Bem Cacau é um espaço de formação profissional que fortalece a economia local e mantém a circulação de renda dentro da própria comunidade.
A Casa da Cerâmica tem um simbolismo muito forte. Por que escolher o barro como instrumento de transformação?
Nada representa melhor a reconstrução do que o barro. Amassar, moldar e transformar a terra em algo novo traduz exatamente o processo vivido pelas mulheres.
Aqui não trabalhamos com tendências ou coleções fechadas. Trabalhamos com liberdade criativa. Cada peça carrega história, propósito e afeto.
Nosso sonho é que o Perequê se consolide como um polo ceramista, fortalecendo a identidade local e gerando renda de forma duradoura.
Quais números mostram o alcance do Instituto até hoje?
Desde a fundação, arrecadamos mais de R$ 15 milhões em doações, aplicados integralmente na implementação e manutenção dos projetos.
Somos 23 colaboradores e já entregamos mais de 55 mil quilos de alimentos, servimos 11 mil refeições para crianças e adolescentes, realizamos mais de 1.000 atendimentos psicossociais e impactamos diretamente 1.200 pessoas.
Hoje contamos com quatro casas: uma sede administrativa e de atendimento, duas dedicadas à produção dos produtos sociais e uma voltada às atividades de crianças e adolescentes.
Quais são os próximos passos do Instituto Alimentando o Bem?
Para este ano, queremos implementar projetos multidisciplinares para 200 crianças e adolescentes, com um espaço dedicado ao esporte, cultura e lazer.
Também planejamos expandir nossa metodologia de desenvolvimento territorial para outras comunidades do país.
O Instituto é um chamado para que mais mulheres, em diferentes posições sociais, olhem com empatia para outras mulheres. A transformação acontece quando o cuidado coletivo se transforma em compromisso.