Fundadora da Escola Brasileira de Empreendedorismo para Mulheres (EBEM), Tatyane Luncah construiu sua trajetória a partir de experiências marcadas por desafios, recomeços e mais de duas décadas de atuação no empreendedorismo. Criada em 2021, a instituição busca oferecer ferramentas de gestão, estratégia e desenvolvimento para mulheres que desejam transformar seus negócios em empresas mais estruturadas, lucrativas e escaláveis.
Em entrevista à Revista Poder, Tatyane fala sobre independência financeira, liderança e a nova economia feminina. A empresária também aborda o papel das conexões entre mulheres, o avanço da inteligência artificial nos negócios e os desafios para consolidar a EBEM como uma instituição que vá além da imagem de sua fundadora.
“A independência financeira não é sobre vaidade, é sobre liberdade de escolha.”
A EBEM nasceu em 2021, em um momento de grandes transformações. Qual foi o principal propósito que motivou a criação da primeira escola de negócios voltada exclusivamente para mulheres no Brasil e como essa missão evoluiu até hoje?
A EBEM nasceu na dor e na coragem, bem no meio da pandemia. Eu olhava para o mercado e via que as mulheres sabiam executar com maestria, mas faltava a mentalidade de dona, o foco em gestão e em escala. O propósito inicial foi dar ferramentas reais e aplicáveis, que eu desenvolvi nesses 25 anos empreendendo, para que a mulher parasse de ter um “autoemprego” e passasse a ter uma empresa de verdade. De lá para cá, essa missão evoluiu. A gente não ensina mais só a gerir; a gente ensina a dominar o mercado, a internacionalizar e a ocupar mesas de alta liderança.
Sua trajetória também passou por um período de reinvenção pessoal. De que forma as experiências que viveu influenciaram a construção da sua visão sobre liderança, independência financeira e empreendedorismo feminino?
Eu costumo dizer que quem vê o palco não vê os bastidores. Eu quase quebrei, já recomecei do zero, passei por momentos difíceis e tive que me redescobrir como empresária e como pessoa. Essas quedas me ensinaram que a independência financeira não é sobre vaidade, é sobre liberdade de escolha. Uma mulher com dinheiro no bolso escolhe onde quer estar, com quem quer casar e como quer viver. Minha liderança e mentoria é verdadeira por causa disso: eu não aceito ver mulher talentosa travada por medo ou por falta de gestão.
Você costuma dizer que estamos vivendo uma nova era da economia feminina. O que esse conceito significa na prática e qual é o papel do EBEM para impulsionar esse movimento no Brasil?
A nova era da economia feminina não é um discurso romântico, são dados e PIB. De acordo com o Sebrae, o Brasil tem mais de 10 milhões de mulheres à frente de negócios. Significa que nós deixamos de ser a “ajuda no orçamento familiar” para virar a força motriz da economia. Na prática, a EBEM acelera isso injetando inteligência de negócios. A gente tira a mulher do operacional e a coloca na estratégia, fazendo o dinheiro girar de forma inteligente entre nós.
A filosofia que eu mais gosto de usar resume essa dinâmica comercial interna de maneira muito prática: “Como você pode ajudar uma mulher? Comprando dela.” Apoiar o empreendedorismo feminino não é dar tapinha nas costas ou curtir foto em rede social. É a nota fiscal emitida. É colocar o seu dinheiro onde está o seu discurso. Quando você compra de uma mulher, você financia a educação dos filhos dela, a contratação de outras mulheres e a independência dela. Isso cria um ecossistema autossustentável e muda nações.
A filosofia “Como você pode ajudar uma mulher? Comprando dela” traduz uma importante essência da escola. Como essa lógica de fortalecimento do mercado entre mulheres pode transformar a economia e gerar impacto coletivo?
Nenhum produto nosso é isolado, eles são degraus de maturidade empresarial. A empresária entra no Gestão Lucrativa para arrumar a casa: ajustar caixa, precificação e processos. No Conexão EBEM, ela vive a virada de chave de networking e energia de mercado. Quando ela cresce e fatura alto, ela sobe para o Miss Mind, que é a nossa mesa de Mastermind de alto nível. E a internacionalização (como nossas imersões em Miami e Nova York) abre a cabeça dela para o mundo. O ecossistema acompanha a mulher desde o faturamento de cinco dígitos até os múltiplos milhões.
O grupo Miss Mind propõe uma experiência bastante exclusiva de relacionamento entre empresárias e CEOs de grandes empresas e referências no Brasil. Qual é o maior aprendizado que você observa ao surgir dessas conexões e como elas impactam os negócios das participantes?
O topo é muito solitário para a mulher empresária. Ela não pode chorar no ombro do funcionário e às vezes o parceiro ou parceira não entende a pressão do fluxo de caixa. O maior aprendizado do Miss Mind é o poder de uma mesa segura. Quando CEOs de grandes empresas se encontram sem máscaras, o jogo muda. Ali saem fusões, parcerias de milhões e, acima de tudo, respostas rápidas para problemas complexos de contratação, escala e valuation.
Olhando para os próximos anos, quais tendências devem impactar os negócios liderados por mulheres e quais competências serão essenciais para as empreendedoras que desejam crescer de forma consistente e escalável?
A grande tendência é a profissionalização da gestão aliada à tecnologia (IA) e a busca por investimentos (Venture Capital). As competências essenciais serão resiliência estratégica, domínio de dados financeiros e inteligência emocional para liderar equipes diversas. Quem focar só no “produto” e esquecer a “tração e canais de venda” vai ficar para trás.
Ao longo de seis edições do Conexão EBEM, você acompanhou de perto a evolução de milhares de empresárias. Quais foram as principais mudanças no perfil, nas dores e nas prioridades das mulheres que empreendem hoje em comparação aos primeiros anos do evento?
Quando olho para as primeiras edições do Conexão EBEM e comparo com o que vivemos hoje, a transformação é impressionante. No início, víamos um movimento muito pautado pelo empreendedorismo por necessidade ou pelo desejo de conciliar a maternidade com a vida profissional. A mulher chegava como uma “euquipe”, acumulando todas as funções operacionais, e a principal dor era a falta de validação e o medo de se posicionar. Hoje, o cenário é completamente diferente e os dados do Sebrae comprovam isso: o empreendedorismo feminino por oportunidade cresceu vertiginosamente no Brasil, superando o motor da necessidade.
A grande mudança que sinto na pele durante o evento está na mentalidade. A mulher que chega hoje ao Conexão EBEM não quer apenas “ter um trabalho flexível”, ela quer construir uma empresa lucrativa, escalável e com governança. A dor deixou de ser a dúvida sobre a própria capacidade e passou a ser a gestão da complexidade: como criar processos, delegar com eficiência, formar equipes e parar de trocar tempo por dinheiro. A prioridade atual não é mais a mera sobrevivência financeira do mês, mas sim a lucratividade sustentável, a construção de uma marca forte e, acima de tudo, a preservação da própria saúde mental através do equilíbrio entre vida pessoal e negócios.
O Conexão EBEM funciona como um termômetro do empreendedorismo feminino. Quais tendências e oportunidades você acredita que devem ganhar força entre os negócios liderados por mulheres nos próximos anos?
O Conexão EBEM é um termômetro vivo porque ouvimos milhares de empresárias em tempo real, e o que percebo para o futuro próximo é uma virada de chave no modo de gerir. A primeira grande tendência é o uso inteligente da tecnologia e da Inteligência Artificial. Segundo relatórios globais da McKinsey sobre o futuro do trabalho, a automação vai liberar tempo de tarefas repetitivas, e é exatamente aí que a mulher se destaca, usando a tecnologia para o operacional e focando no fator humano: experiência do cliente, empatia e estratégia.
Outra oportunidade gigantesca está no fortalecimento das redes de negócios B2B entre mulheres e na maturidade financeira. As pesquisas do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) mostram que o acesso a crédito e a gestão de caixa ainda são gargalos históricos para o público feminino, mas vejo uma geração de empresárias disposta a dominar indicadores, precificação e finanças para buscar investimentos maiores e expandir mercado. Por fim, a maior tendência de todas é a busca por modelos de negócios sustentáveis para a própria liderança. A cultura do esgotamento perdeu o glamour; a oportunidade agora está em desenhar empresas com processos bem estruturados que faturem alto sem exigir que a fundadora viva à beira do burnout.
Hoje, o desafio parece ser consolidar o EBEM como uma marca que vai além da sua fundadora. Como você enxerga o futuro da instituição e qual legado deseja construir para o empreendedorismo feminino nos próximos anos?
Esse é o meu principal projeto de governança atual. A EBEM nasceu da minha história, mas ela pertence às milhares de mulheres que passam por lá. Estamos estruturando processos, trazendo lideranças fortes e transformando a escola em um hub perene de capacitação de empresárias. O legado que eu quero deixar é o de um Brasil onde o termo “empreendedorismo feminino” nem precise mais existir por diferenciação, que sejamos vistas apenas como as grandes potências de negócios que realmente somos e que nosso Brasil saia do top 7 em empreendedorismo feminino mundial e seja top 3!
