Márcia Queiroz sempre buscou propósito em sua trajetória profissional e foi na medicina, como nefrologista, e no empreendedorismo que encontrou uma forma de unir conhecimento e vocação. À frente da Renal Prime, criada em 2024 ao lado do empresário Eilson Studart, ela trabalha para transformar a jornada de pacientes com doença renal crônica, incorporando conceitos de hospitalidade a um segmento em que os pacientes passam horas em tratamento, várias vezes por semana.
Com investimento de R$ 10 milhões por unidade, a Renal Prime já conta com duas unidades em Brasília e planeja chegar a outras capitais brasileiras nos próximos três anos. A proposta é oferecer uma experiência mais humana, acolhedora e individualizada, na qual conforto, eficiência e atendimento personalizado estejam presentes ao longo de toda a jornada do paciente.
Em entrevista exclusiva à Revista Poder, Márcia compartilha sua visão sobre empreendedorismo, propósito e os desafios de construir um novo modelo de cuidado em saúde, conciliando sua experiência como médica com a atuação à frente de um negócio.
Dra. Márcia, você construiu sua carreira na medicina e, posteriormente, assumiu também o papel de empreendedora. Em que momento percebeu que poderia transformar sua experiência como nefrologista em um negócio na área da saúde?
Eu não diria que houve um único momento. Foi uma construção. Minha história profissional nasceu dentro da medicina, e tenho muito orgulho da minha trajetória como nefrologista, tanto no serviço público quanto no privado. Foi convivendo diariamente com pacientes renais que comecei a perceber que existia espaço para fazer diferente.
A doença renal crônica impõe uma relação muito particular com o tratamento. Muitos pacientes passam anos conosco, várias horas por semana. A clínica de diálise deixa de ser apenas o lugar onde se realiza um procedimento e passa a fazer parte da vida daquela pessoa.
Em algum momento eu me perguntei: por que não podemos oferecer excelência técnica e, ao mesmo tempo, uma experiência mais humana, acolhedora, individualizada e digna?
Foi daí que nasceu minha visão como empreendedora. Eu não deixei de ser médica para me tornar empresária. Na verdade, tornei-me empresária porque sou médica e porque queria ampliar minha capacidade de cuidar. Empreender passou a ser uma forma de transformar em escala aquilo em que eu já acreditava à beira do leito.
Empreender na saúde exige conciliar a visão empresarial com a responsabilidade de cuidar de pessoas. Quais foram os principais desafios dessa transição para você e o que aprendeu ao longo desse processo?
Talvez o maior desafio tenha sido compreender que cuidar de uma empresa de saúde também é uma forma de cuidar de pessoas. Na medicina, somos treinados para diagnosticar, decidir e assumir responsabilidades. Como empresária, precisei aprender outras linguagens: gestão, processos, indicadores, tecnologia, experiência do paciente, liderança e sustentabilidade financeira. E descobri que nenhuma dessas dimensões é incompatível com a medicina. Pelo contrário: quando bem conduzidas, elas permitem oferecer uma assistência ainda melhor.
Também aprendi que não se constrói nada relevante sozinho. Uma clínica pode ter equipamentos de última geração, uma estrutura sofisticada e os melhores protocolos, mas são as pessoas que transformam tudo isso em cuidado. Meu maior aprendizado foi entender que empreender em saúde não significa colocar o negócio acima do paciente. Significa construir um negócio tão consistente que seja capaz de colocar o paciente no centro todos os dias.
A Renal Prime propõe levar conceitos de hospitalidade e atendimento personalizado para a jornada do paciente renal. De onde veio essa visão e como ela influencia as decisões do negócio?
Veio de uma inquietação muito pessoal. Sempre pensei que o paciente renal não deveria ser definido pela doença e muito menos sentir que sua vida se resume à diálise. Estamos falando de pessoas que trabalham, viajam, têm família, projetos, sonhos e desejos. E que, por uma condição de saúde, precisam incorporar um tratamento extremamente exigente à rotina. Se não podemos retirar essa necessidade, podemos transformar profundamente a maneira como ela é vivenciada.
A Renal reúne conceitos que tradicionalmente não eram associados a uma clínica de diálise: hospitalidade, conforto, personalização, tecnologia e atenção aos detalhes, sem jamais abrir mão do rigor científico e da segurança. Para mim, excelência é perceber que, por trás de cada sessão de diálise, existe uma pessoa. É conhecer sua história, respeitar suas escolhas e fazer com que ela se sinta segura e verdadeiramente cuidada.
A tecnologia e a inteligência artificial já fazem parte da operação da Renal Prime. Na sua visão, como a inovação pode transformar o setor de saúde nos próximos anos?
Na nefrologia, especialmente em pacientes em diálise, produzimos uma quantidade enorme de informações clínicas. Utilizar esses dados de maneira inteligente pode significar mais segurança, mais precisão e decisões cada vez mais individualizadas. Mas existe algo que nenhuma tecnologia deve substituir: o vínculo.
Um algoritmo pode reconhecer padrões; ele não segura a mão de um paciente com medo. Pode gerar alertas; não conhece, por si só, a história que existe por trás daquele resultado.
A medicina do futuro será extraordinariamente tecnológica, mas acredito que as instituições que realmente farão diferença serão aquelas capazes de usar toda essa tecnologia para devolver ao profissional aquilo que é mais precioso: tempo e informação de qualidade para cuidar melhor de outro ser humano.
Depois de unir medicina e empreendedorismo, que conselho você daria hoje para outros profissionais da saúde que desejam empreender, mas têm receio de sair do modelo tradicional de carreira?
Eu diria, primeiro, que não é preciso abandonar a essência da medicina para empreender. Foi justamente a minha essência como médica que me mostrou o que eu gostaria de transformar.
Empreender exige coragem, mas coragem não significa ausência de medo. Significa ter um propósito suficientemente forte para continuar mesmo diante dele. É necessário estudar, aprender gestão, cercar-se de pessoas competentes, aceitar que haverá erros e ter humildade para mudar de direção quando necessário.
Não empreenda apenas para abrir uma empresa. Empreenda para resolver um problema que realmente importa. Quando existe um propósito verdadeiro, o negócio deixa de ser apenas um negócio. Ele se transforma em instrumento de impacto.