Vinicius Löw construiu sua trajetória no marketing a partir da gestão de marcas que ocupam territórios distintos, mas compartilham um desafio comum: manter relevância cultural em um mercado em constante transformação. Publicitário, com extensão em Trade Marketing e especialização em Branding, ele está no Campari Group desde 2021, assumiu a diretoria de Marketing em 2022 e, desde 2025, lidera também a área de Trade no Brasil.
À frente de marcas como Aperol, Campari, Wild Turkey e Cynar, Vinicius acompanha mudanças no comportamento do consumidor, no varejo e nas estratégias de construção de marca. Em entrevista à Revista Poder, ele fala sobre liderança, posicionamento, crescimento do mercado de whisky, autenticidade e os caminhos que aproximam um bourbon do Kentucky do universo do sertanejo e do agro brasileiro.
Para começar, quem é Vinicius Löw?
Sou publicitário, formado em Publicidade e Propaganda, com extensão em Trade Marketing e especialização em Branding. Estou na Campari desde 2021, assumi a diretoria de Marketing em 2022 e, desde 2025, lidero Marketing e Trade do grupo no Brasil. No fim das contas, trabalho com o que as marcas têm de mais cultural: sabor, música e encontros.
Como é comandar o marketing de marcas tão diferentes como Aperol, Campari, Wild Turkey e Cynar?
Acredito que o mais interessante de trabalhar com marcas tão diferentes é justamente não tentar fazer com que elas se pareçam. Cada uma tem uma personalidade, uma história e um papel cultural muito particular. Aperol tem essa capacidade incrível de transformar momentos simples em ocasiões de celebração. Campari carrega uma atitude mais provocadora, sofisticada e inconformista. Wild Turkey é sobre convicção, autenticidade e não diluir sua personalidade. E Cynar tem uma irreverência muito própria, contra o desgaste da vida moderna.
O grande desafio é entender o que torna cada uma dessas marcas única e encontrar maneiras de ampliar sua relevância cultural sem perder sua essência.
Cada marca tem um território cultural próprio. Meu trabalho é garantir que cada uma fale a sua língua sem perder a coerência do grupo. Aperol é o brinde leve do fim de tarde, Campari é o aperitivo que virou ícone da coquetelaria, Wild Turkey é intensidade e autenticidade. O desafio é adaptar a estratégia a diferentes perfis de consumo, e é isso que nos mantém ocupados.
O que a liderança em um mercado em transformação te ensinou?
Que, muitas vezes, o maior risco é justamente não arriscar. É preciso ter coragem para questionar o que sempre funcionou, confiar no próprio instinto e estar disposto a experimentar novos caminhos.
Também aprendi que tradição e transformação não são opostos. Pelo contrário. Ter raízes fortes é o que nos dá confiança para explorar novos territórios sem perder nossa identidade. O Brasil é um mercado especialmente interessante nesse sentido.
Temos consumidores que valorizam autenticidade, personalidade e marcas com histórias verdadeiras, mas que também estão constantemente reinventando seus hábitos e ocasiões de consumo.
Liderar é encontrar esse equilíbrio: respeitar o que nos trouxe até aqui e não deixar que isso limite o lugar aonde podemos chegar.
O Brasil é mesmo um mercado de bourbon?
É, e mais do que muita gente imagina. O Brasil lidera o consumo de bourbon na América Latina, e o mercado global da categoria deve passar de cerca de US$ 9 bilhões em 2026 para quase US$ 13 bilhões em 2031, segundo projeções de mercado. O brasileiro descobriu que bourbon vai muito além do shot de filme: funciona em highball, em drinks e em ocasiões cotidianas.
O que explica o crescimento do whisky no varejo brasileiro?
Acredito que o crescimento do whisky está diretamente ligado à transformação da relação do consumidor brasileiro com a categoria. O whisky está deixando de ser uma bebida cercada de códigos, regras e ocasiões muito específicas para conquistar novos espaços, novos públicos e formas de consumo.
O varejo tem um papel fundamental nessa transformação. Mais do que disponibilizar produtos, ele precisa despertar a curiosidade, estimular a descoberta e ajudar a quebrar algumas barreiras que historicamente limitaram a categoria. Não se trata apenas de vender whisky para mais pessoas, mas de dar às pessoas mais razões para escolher whisky.
Wild Turkey lançou a plataforma “Confie no Seu Instinto”. O que é isso?
É a tradução do que a marca já é no líquido para a comunicação. Wild Turkey não se dilui e não pede desculpas pela intensidade. “Confie no Seu Instinto” fala de escolher com convicção, de reconhecer o que é bom antes mesmo de parar para pensar. Como disse no lançamento, é um convite para quem já conhece o American Whiskey deixar de lado o óbvio e escolher com convicção. É um bourbon que não amansa o paladar.
De onde vem o nome Wild Turkey?
O nome vem de uma história real da destilaria. Em 1940, um executivo da época saiu para caçar perus selvagens, as aves que dão nome à marca, e levou barris do whiskey para presentear os clientes favoritos. O apelido pegou e virou marca registrada. É o tipo de história que resume a marca: autêntica, sem roteiro, nascida de um gesto espontâneo.
Por que levar um bourbon do Kentucky para o universo do sertanejo e do agro brasileiro?
No fundo, existe muito mais em comum entre o Kentucky e o interior do Brasil do que a distância geográfica entre eles. Wild Turkey nasceu em um território de tradições fortes, autenticidade e personalidade. E encontramos esses mesmos valores na cultura do agro brasileiro, especialmente no universo dos rodeios e na atitude cowboy.
O cowboy vai além da bota e do chapéu. É uma atitude diante da vida. É sobre ter convicção, confiar no próprio instinto, valorizar suas raízes e, acima de tudo, não diluir sua personalidade para se encaixar. Essa é justamente a essência de Wild Turkey. Um bourbon de personalidade intensa, que não abre mão do seu caráter para agradar a todos. Um verdadeiro whisky cowboy, que não se dilui.
O que a cultura do “agro” ensina para o marketing?
O agro ensina que autenticidade se constrói e não se negocia. Vivemos em um momento em que muitas marcas ficam preocupadas em acompanhar “o hype” e fazer parte de todas as conversas que acabam esquecendo quem realmente são. O agro, por outro lado, tem uma relação muito forte com suas origens, seus valores e seu senso de pertencimento.