Por Jair Viana
Enquanto a poeira do manganês volta a subir no calor seco de Marabá, ela já não é levantada por grandes mineradoras, mas por garimpeiros e escavadeiras em áreas antes controladas pela Buritirama Mineração S.A. — outrora a principal produtora de manganês da América do Sul.
Hoje, esses territórios vivem um impasse entre a ilegalidade e a omissão institucional de grandes bancos.
O que poucos percebem é que, nos bastidores, a condução administrativa dessas áreas — em meio a disputas judiciais — está nas mãos de representantes do sistema financeiro, sem vivência no setor mineral.
Desde a intervenção judicial na Buritirama, em julho de 2023, a gestão dos ativos passou para a Geribá Investimentos Ltda., uma gestora de fundos sediada na Avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo, conhecida por atuar em ativos problemáticos e por representar os interesses de Santander e Itaú, dois dos maiores credores.
Já em abril de 2024, havia sinais de que a nova administração enfrentava sérias dificuldades.
Mesmo assim, numa movimentação articulada pelos próprios bancos, qualquer tentativa de substituição da Geribá foi barrada. Em vez de aproveitarem a oportunidade aberta com a convocação da Assembleia Geral de Credores, decidiram apoiar oficialmente a continuidade da gestora, pedindo ao juiz do caso a suspensão da reunião e garantindo o controle da Geribá até o fim do processo.
O Itaú peticionou nesse sentido, seguido pelo Santander e outros credores, todos com manifestações semelhantes.
Com isso, uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo consolidou a entrega de uma mineradora produtiva a uma administradora financeira privada — transformando um ativo estratégico do subsolo brasileiro em mera peça de planilha.
Na prática, o controle de um dos maiores polos de manganês do país passou das mãos de quem entende de mineração para as de quem domina números e balanços — e o resultado, até agora, tem sido um vácuo de responsabilidade, onde o garimpo ilegal e o crime organizado se fortalecem.
De mina produtiva a ativo financeiro
Por mais de uma década, a Buritirama Mineração S.A. foi referência no setor mineral brasileiro, chegando a responder por quase metade da produção nacional de manganês, segundo relatórios da Agência Nacional de Mineração (ANM).
Durante esse período, a empresa era considerada modelo de eficiência e sustentabilidade sob a antiga administração.
Em 2022, diante de pressões financeiras e da necessidade de reorganizar suas obrigações, a Buritirama e seu acionista solicitaram à Justiça do Pará uma mediação com os bancos credores — entre eles Santander e Itaú — para garantir a continuidade das operações.
A proposta, no entanto, foi rejeitada.
Sob a liderança de Mário Leão (Santander) e Milton Maluhy (Itaú), os bancos optaram por endurecer as negociações, interrompendo qualquer tentativa de acordo direto.
Com isso, ativos avaliados em bilhões de reais — incluindo jazidas, equipamentos, portos e licenças — acabaram paralisados à espera de uma decisão judicial. Nesse intervalo, as estruturas foram depredadas e saqueadas, e parte das minas invadida.
Uma fonte local resume o cenário:
“A empresa levou anos para erguer um patrimônio sólido. Com a interferência e a omissão dos bancos, as terras foram tomadas, o minério roubado e o garimpo ilegal se espalhou. Parece que houve um interesse em desmontar a empresa para atender a outros propósitos. Até suspeitas de lavagem de dinheiro circulam.”
Desde 2023, a Geribá Investimentos Ltda., sob o comando de Paulo Figueiredo, assumiu a administração judicial dos ativos.
Os relatórios enviados pela gestora ao tribunal, porém, geram dúvidas sobre a transparência e a real situação operacional.
Profissionais afastados anteriormente por má conduta e irregularidades internas foram recontratados pela nova gestão e colocados em cargos de comando.
Além disso, um antigo fornecedor envolvido em sobrepreço de contratos voltou a operar nas minas com aval da administração.
“Parece o criminoso voltando à cena do crime. Todos aqui sabiam do histórico, mas mesmo assim a Geribá e os bancos insistiram em trazê-los de volta. Eu preferi me afastar — esse caminho não leva a lugar bom”, relata um ex-funcionário da mineradora.
Ao contrário de uma empresa do setor mineral, a Geribá é uma gestora financeira, sem corpo técnico de engenheiros ou experiência de campo.
“A intervenção criou um vácuo — e, no lugar da operação produtiva, entrou o controle financeiro”, explica um ex-consultor da Buritirama.
O resultado é que, onde antes se extraía riqueza, hoje se acumulam planilhas.
“Minério não se guarda em balanço — ele precisa ser explorado. E, se o Estado não protege, alguém vai ocupar esse espaço. A pergunta é: quem vai arcar com o prejuízo?”, conclui o especialista.
Fonte: Diário de SP
