A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira a segunda etapa da Operação Disclosure, ampliando o alcance das investigações sobre as inconsistências contábeis que levaram à crise financeira das Americanas. Desta vez, a apuração alcança acionistas de referência da companhia, representantes do mercado financeiro e executivos de instituições bancárias que mantinham relações comerciais com a varejista.
Ao todo, foram expedidos nove mandados de busca e apreensão em endereços localizados nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. A decisão judicial também autorizou o bloqueio de bens e valores que podem atingir até R$ 54 bilhões.
Entre os investigados estão os acionistas Carlos Alberto Sicupira e Paulo Alberto Lemann, além de Eduardo Saggioro Garcia, apontado pelos investigadores como operador ligado aos sócios da empresa. Executivos vinculados a instituições financeiras também passaram a integrar o foco das diligências.
Segundo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, a nova fase da operação pretende esclarecer se pessoas próximas à estrutura societária da companhia ou representantes do sistema financeiro tiveram conhecimento prévio das irregularidades ou desempenharam algum papel na manutenção do esquema que teria distorcido os resultados financeiros da varejista por vários anos.
As investigações indicam que ex-dirigentes das Americanas teriam ocultado dívidas bilionárias, utilizado operações financeiras sem a devida contabilização e registrado receitas sem respaldo econômico, criando uma percepção artificialmente positiva sobre a situação patrimonial da companhia. As autoridades apontam indícios de possíveis crimes de manipulação de mercado e associação criminosa.
Em nota, os acionistas de referência informaram que foram surpreendidos pela operação e sustentam que tanto eles quanto integrantes do conselho de administração foram enganados pela antiga diretoria da empresa. As defesas afirmam ainda que colaboram com as autoridades desde a revelação das inconsistências, em janeiro de 2023, e que aguardam acesso à íntegra da decisão judicial para eventual posicionamento complementar.
As instituições financeiras citadas também se manifestaram. O Itaú declarou que não é investigado e reiterou ter fornecido informações às autoridades desde o início das apurações. O Santander afirmou continuar colaborando com os órgãos responsáveis e destacou compromisso com padrões de ética e transparência. O Bradesco informou acompanhar os desdobramentos do caso e colocou-se à disposição das autoridades.
As Americanas esclareceram que não foram alvo de buscas nesta nova etapa da operação. A companhia informou que segue colaborando com as investigações e declarou ser a principal interessada no esclarecimento definitivo dos fatos.
O escândalo veio à tona em janeiro de 2023, quando a empresa comunicou a existência de inconsistências contábeis inicialmente estimadas em cerca de R$ 20 bilhões, situação que culminou no pedido de recuperação judicial. Desde então, a investigação avançou sobre ex-executivos da companhia, alguns deles denunciados pelo Ministério Público Federal por supostamente integrarem uma estrutura organizada destinada a manipular demonstrativos financeiros e induzir investidores ao erro.