A trajetória da Direcional Engenharia está diretamente ligada ao nome da família Valadares Gontijo. A empresa foi fundada no início da década de 1980 por Ricardo Valadares Gontijo e é hoje comandada pelo filho, Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo, que atua no grupo desde a década de 2000. Sob essa gestão familiar, a companhia se tornou uma das maiores construtoras do país no segmento de habitação popular — e, na mesma medida, passou a figurar em processos, reclamações de consumidores e investigações que acompanham empresas de grande porte do setor.
A expansão pelo Minha Casa, Minha Vida
O salto da Direcional acompanhou o fortalecimento do programa Minha Casa, Minha Vida. A parceria com a Caixa Econômica Federal permitiu à empresa entregar milhares de unidades voltadas a famílias de baixa renda, movimentando cifras bilionárias e ampliando sua presença em diversos estados.
Esse modelo — crescimento apoiado em crédito e financiamento público — é apresentado por parte do mercado como exemplo de eficiência em um setor dependente de política habitacional. Para críticos, a mesma dependência levanta o debate sobre a proximidade entre grandes incorporadoras e os recursos estatais que sustentam sua operação. O CEO, por sua vez, costuma defender publicamente que o déficit habitacional é ao mesmo tempo um desafio social e uma oportunidade de negócio de longo prazo, sustentada por ganhos de escala e padronização.
Reclamações de consumidores e vícios construtivos
Entre os questionamentos mais recorrentes estão relatos de moradores sobre problemas construtivos surgidos após a entrega das chaves: infiltrações, rachaduras, falhas de acabamento e defeitos estruturais. Em parte desses processos, laudos periciais concluíram que os problemas não podiam ser atribuídos apenas à manutenção dos moradores, e algumas decisões judiciais reconheceram a existência de vícios e determinaram reparos por parte da empresa.
É importante dimensionar o número: bases públicas de processos, como o Jusbrasil, listam dezenas de ações que mencionam o nome dos executivos e da construtora, mas participar de um processo não implica condenação — a parte pode figurar como autora, ré ou terceira, e boa parte das disputas é de natureza cível ou trabalhista comum a empresas do porte da Direcional.
Ações do Ministério Público
No plano institucional, o Ministério Público Federal ajuizou ações civis públicas relacionadas a empreendimentos habitacionais da construtora em estados como Goiás, Acre e Amazonas, questionando condições de entrega e habitabilidade de conjuntos financiados com recursos públicos.
Aqui o desfecho é matizado, e vale registrar a resposta da empresa. Segundo a Direcional, no Residencial Viver Melhor, em Manaus, os reparos seguem cronograma de acordo homologado em ação civil pública, com acompanhamento da Defensoria Pública do Amazonas. Sobre Goiás, a companhia afirma que a ação está suspensa por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região e que os pontos discutidos não comprometeriam a segurança nem a habitabilidade das unidades. Já a questão das condições de trabalho, apontada pelo Ministério Público do Trabalho, teria sido encerrada por acordo firmado em outubro de 2019.
O episódio da aeronave
Um dos casos mais citados quando se fala da relação entre o grupo e o poder público é o do avião particular usado por agentes públicos. Convém precisar os fatos: segundo apuração noticiada pelo G1, o episódio remonta a 2013 e envolveu a aeronave do fundador, Ricardo Valadares Gontijo, utilizada em deslocamento ligado à Prefeitura de São José do Rio Preto. O Ministério Público investigou possível vantagem indevida a agente público, mas o processo foi definitivamente arquivado em 2018, quando a Justiça entendeu não haver provas suficientes para condenação.
No mesmo sentido, a empresa afirma que a ação de improbidade administrativa ligada ao caso foi julgada integralmente improcedente pela 1ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, e que os processos envolvendo o executivo tiveram desfecho favorável a ele.
Outras frentes
A Direcional também apareceu em uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro sobre pagamentos de empresas a uma milícia da Zona Oeste. Segundo o noticiado, os investigadores tratam a construtora como possível vítima de extorsão, e o inquérito seguia sem conclusão oficial.
Um balanço
O retrato que emerge das fontes públicas é o de uma empresa que cresceu rápido, à sombra de um programa habitacional financiado pelo Estado, e que, nesse processo, acumulou um volume expressivo de litígios, reclamações e investigações — comuns, em alguma medida, a incorporadoras que operam em larga escala. Ao mesmo tempo, vários dos episódios que ganharam repercussão terminaram arquivados, julgados improcedentes ou resolvidos por acordo, o que a empresa faz questão de sublinhar em suas manifestações.
O que permanece é uma trajetória sob observação constante de consumidores, órgãos de controle e do próprio mercado — menos pela existência de uma sentença definitiva que resuma o caso, e mais pela recorrência com que o nome da Direcional e de seus executivos reaparece em disputas sobre qualidade das obras, atendimento ao cliente e a fronteira entre a atividade empresarial e o dinheiro público.