A prisão de Gilbert Wagner Antunes Lopes, conhecido como “Waguinho Batman”, em Itaguaí, na região metropolitana do Rio de Janeiro, na última terça-feira (14), colocou fim a uma fuga que durava mais de dois anos. Apontado como mandante do assassinato do vereador de Presidente Kennedy Marcos Augusto Costalonga (PL), morto a tiros em maio de 2021, ele era considerado um dos criminosos mais procurados do Espírito Santo.
De acordo com as investigações, a motivação do crime estaria relacionada a uma dívida entre o acusado e a vítima.
Em junho de 2024, uma operação coordenada pelo então delegado de Presidente Kennedy, Tiago Viana, resultou na prisão dos suspeitos de executar o homicídio. O apontado mandante, entretanto, não foi localizado.
A transferência do delegado
Após a operação, um episódio passou a chamar atenção. Segundo informações apuradas, no dia seguinte à ação policial, o então delegado-geral da Polícia Civil do Espírito Santo, José Darcy Arruda, solicitou ao delegado Tiago Viana o relatório de indiciamento de Gilbert Wagner, alegando que o documento seria encaminhado ao então governador Renato Casagrande.
Dias depois, Tiago Viana foi transferido de Presidente Kennedy para Marataízes, município vizinho onde, segundo as investigações, Waguinho Batman residia e mantinha atuação criminosa.
Na ocasião, a justificativa oficial apresentada para a mudança foi a necessidade de preservar a segurança do delegado diante das ameaças que vinha recebendo. Após a transferência, as ligações atribuídas ao investigado cessaram.
Procurado, Tiago Viana afirmou que não comentaria detalhes da investigação e ressaltou que sua remoção ocorreu conforme publicação oficial no Diário Oficial do Estado.
José Darcy Arruda também negou qualquer tipo de interferência no caso. Em nota, afirmou que jamais sofreu ou exerceu pressão relacionada às investigações, disse que nunca havia ouvido falar de Waguinho Batman durante sua carreira e declarou que prestou apoio logístico às equipes responsáveis pela captura do investigado, que acabou não ocorrendo durante sua gestão.
Mudança no comando da Polícia Civil
Em abril deste ano, José Darcy Arruda deixou o comando da Polícia Civil. A mudança ocorreu após Renato Casagrande renunciar ao governo para disputar o Senado, permitindo que o então vice-governador Ricardo Ferraço assumisse o Executivo estadual.
Na sequência, Ferraço nomeou Jordano Bruno Gasperazzo Leite para a chefia da Polícia Civil.
Poucos meses depois, uma operação conjunta entre as polícias civis do Espírito Santo e do Rio de Janeiro localizou e prendeu Waguinho Batman em Itaguaí. Segundo a Polícia Civil fluminense, o investigado era monitorado havia cerca de dois meses por equipes da 50ª Delegacia de Polícia.
Questionamentos na esfera judicial
Além da investigação policial, o caso também reúne episódios envolvendo integrantes do Judiciário.
O ex-juiz Marcelo Jones de Souza Noto, que já atuou na comarca de Presidente Kennedy e atualmente está aposentado compulsoriamente, nunca participou do processo envolvendo Waguinho Batman. Ainda assim, conforme apuração da reportagem, ele teria telefonado para a juíza responsável pelo caso, Priscila Bazzarella de Oliveira, pedindo que não fosse decretada a prisão do investigado.
Não há confirmação de que a magistrada tenha acolhido o pedido.
Marcelo Jones Noto foi aposentado compulsoriamente pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo em 2021, após processos administrativos disciplinares. Entre as acusações analisadas pelo tribunal estavam tentativa de coação de testemunha e decisões consideradas irregulares em outros processos.
Soltura dos acusados
Outro episódio que gerou repercussão ocorreu em maio deste ano, quando o juiz Douglas Demoner Figueiredo, da 1ª Vara Criminal Regional de Marataízes, determinou a revogação da prisão preventiva de três acusados de executar o homicídio do vereador: Douglas da Silva Nunes, Elan Martins e Everaldo de Almeida Neto.
Na decisão, o magistrado apontou excesso de prazo na tramitação do processo e destacou que equipamentos eletrônicos apreendidos durante a investigação permaneciam sem perícia, situação que, segundo o entendimento judicial, caracterizava constrangimento ilegal.
O que dizem os envolvidos
Waguinho Batman permanece preso após a Justiça do Rio de Janeiro converter sua prisão em flagrante em preventiva. O investigado está à disposição da Vara Única de Presidente Kennedy e poderá ser transferido para o sistema prisional capixaba.
Em nota encaminhada por meio da assessoria do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, o juiz Douglas Demoner Figueiredo afirmou que não possui qualquer relação com Gilbert Wagner Antunes Lopes.
“O magistrado esclarece que desconhece o réu mencionado. Afirma não possuir qualquer amizade, proximidade, conhecimento ou inimizade com a pessoa citada, ressaltando que sequer sabe quem ela é.”
O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) informou que já ofereceu denúncia por homicídio qualificado e afirmou que, até o momento, não foram encontrados elementos que indiquem ingerência política nas investigações.
Segundo o órgão, embora a vítima exercesse mandato de vereador, a motivação do crime, em princípio, não possui relação com sua atuação parlamentar.
Até o fechamento desta reportagem, a defesa de Gilbert Wagner Antunes Lopes não havia sido localizada para comentar o caso.
Embora a prisão do apontado mandante represente um avanço na investigação, episódios ocorridos ao longo da apuração — como a transferência do delegado responsável pelo caso, a demora na captura do investigado, a tentativa de contato de um ex-magistrado com a juíza responsável e decisões judiciais posteriores envolvendo os acusados — continuam alimentando questionamentos sobre toda a condução do processo.