Por João Carlos dos Reis*
O Brasil vive uma situação inédita. O sexto maior produtor de petróleo do mundo é obrigado a exportar o produto “in natura” e importar o combustível pronto para o consumo.
Era — e ainda é — mandatório que essa condição, que pode ser chamada de ridícula, seja alterada. Isso evitaria que o país permanecesse dependente de terceiros e, mais do que isso, entregasse a outros países o controle dessa importante fonte de energia.
Abril de 2019.
Recebo uma chamada de Ricardo Moura, companheiro de muitas lutas no ramo sucroalcooleiro, introduzindo o raciocínio acima e finalizando com uma pergunta:
— Estás disposto a construir uma refinaria de petróleo no interior de São Paulo?
Nossa experiência em projetos anteriores não me permitia uma resposta negativa.
Encontrei-me com ele em São Paulo, no dia 26 de abril.
O dia acabava de amanhecer e eu já estava em Guarulhos, cheio de entusiasmo e visualizando o projeto, esperando a chegada de Ricardo.
Ricardo Moura e Rafael Miranda, este também companheiro de outros projetos, vislumbraram a possibilidade, carregada de ousadia, de construir uma refinaria no interior de São Paulo, perto do consumidor urbano e, principalmente, nas imediações de extensas áreas produtivas.
A maioria das refinarias do Brasil, senão todas, está situada nas áreas litorâneas. Essa localização se justificava pela facilidade de importação da matéria-prima, numa época em que o Brasil ainda era inexpressivo na exploração de petróleo.
Esse comportamento facilitava o fornecimento da matéria-prima, mas desprezava por completo o consumidor do interior dos estados, composto, em sua maioria, por agricultores de pequenos sítios e grandes fazendas.
O oeste dos estados do Paraná e de São Paulo, mais o Triângulo Mineiro, o sul de Goiás e o leste do estado de Mato Grosso do Sul, consomem mais de 10% de todo o combustível do Brasil.
Esse combustível normalmente vem de Paulínia, percorrendo áreas de mais de 500 quilômetros para chegar aos seus consumidores finais.
Nesse cenário, que acaba se repetindo nos demais estados, fica evidente a necessidade de fabricar o combustível próximo ao consumidor, trazendo, adicionalmente, redução de custos e a possibilidade de criação de fábricas de produtos cuja matéria-prima é retirada do petróleo.
A primeira reunião da empresa, da qual eu participei, ocorreu na Rodovia dos Bandeirantes. Não rodamos nem cem quilômetros em direção ao interior e eu já estava entusiasmado e inteiramente aderido àquela ousadia, que inovava por completo o mercado de combustíveis da região e, ao mesmo tempo, incomodava os grandes produtores de combustível, que teriam seu mercado reduzido em uma região de grande consumo.
Na inocência de quem viveu mais de trinta anos no setor sucroalcooleiro, nem imaginávamos a quantidade de inimigos que estávamos criando.
Os meses de maio e junho foram destinados às projeções e aos estudos de viabilidade do projeto, que, na sua essência, consistia em transformar uma fábrica de óleos vegetais, parada havia alguns anos, em uma refinaria de petróleo.
No dia 2 de julho de 2019, eu e Ricardo Moura chegamos à fábrica abandonada e saqueada.
Móveis velhos, em estado deplorável; computadores que só tinham a carcaça; e, o que era muito pior, um passivo ambiental que só foram resolvidos depois de muito trabalho e algum prejuízo, assumido em nome de estar adequado às normas ambientais.
Ao quadro social seriam acrescidas pessoas que já haviam adquirido a fábrica abandonada e iniciado, de forma precária, o processo de transformação.
A meta era construir a indústria com equipamentos recondicionados e em boas condições, conservando sempre o objetivo de manter o valor total estipulado no orçamento.
Fomos para a obra, mesmo sem nenhuma estrutura de administração. Controlávamos o orçamento, fazíamos as compras, recebíamos os equipamentos e acompanhávamos sua contabilização e seu registro no ativo da nova empresa.
Foi um trabalho intenso, recompensado apenas pela visão futura de uma refinaria e pelo andamento das obras, que cumpriam exatamente o que estava preconizado no orçamento inicial.
Trabalhamos em silêncio.
Nesse período de construção, nunca saiu em qualquer meio de comunicação a informação de que, na pequena cidade de Coroados, estava sendo construída uma refinaria de petróleo: a SSOIL ENERGY S/A.
Na nossa chegada, fizemos uma visita à Prefeitura Municipal de Coroados para uma audiência com a prefeita, senhora Terezinha.
Combinamos previamente que não usaríamos o termo “refinaria”, pois poderia causar um impacto desnecessário junto à comunidade.
Ensaiamos dizer que estávamos construindo uma indústria petroquímica.
Ao usarmos essa palavra, a prefeita disse, com entusiasmo:
— UMA REFINARIA?
Foi impossível desdizer, principalmente diante do entusiasmo da prefeita.
De repente!
Uma surpresa desagradável, que só não nos levou ao nocaute porque tínhamos uma equipe fantástica.
Em 2021, uma epidemia inédita, a COVID-19, retirou 32% da nossa mão de obra. Outro tanto abandonou o trabalho, com receio de ficar doente.
Lembro-me de uma dessas conversas de final de expediente, quando, desanimado, disse ao Ricardo:
— Seguimos ou paramos?
Seguimos.
Seguimos carregados de medo, desesperança e saudades da família, pois a primeira regra imposta a nós mesmos era permanecer em Coroados, sem visitar a família por mais de quarenta dias, impedindo qualquer possibilidade de transmissão daquele vírus maldito aos nossos familiares.
A dúvida, o sentimento de desesperança e o medo, além da fé em Deus, nos guiaram até o fim da pandemia e, por graça Dele, também até o fim da primeira fase da construção.
Por ironia, eu e Ricardo, fomos infectados quando a indústria já estava concluída e em operação e a doença já não era tão severa.
No decorrer da construção, dispendemos um esforço incomum no relacionamento com a CETESB, na gerência de Araçatuba, onde não havia mão de obra com conhecimento específico em refinarias.
O sistema de refino da SSOIL é realizado por destilação atmosférica, com captação e queima dos gases em torres, que não são lançados na atmosfera.
Talvez esse tenha sido o ponto de maior dificuldade para os representantes da CETESB, que foram a Paulínia para serem treinados no assunto.
Foi difícil, mas não impossível, explicar e comprovar que nosso processo era desprovido de resíduos.
Obtivemos a licença de operação emitida pela CETESB. Restava agora o obstáculo mais temido: a autorização de produção a ser emitida pela ANP — Agência Nacional do Petróleo.
Aquilo em que poucos acreditavam aconteceu.
Em maio de 2022, a SSOIL estava pronta para processar petróleo condensado, com uma capacidade nominal de 12.500 barris por dia.
Imaginemos que temos uma pizza com oito pedaços e oito pessoas para se alimentar.
Um pedaço para cada um é a divisão mais justa.
Subitamente, do nada, um grupo ousado aparece pronto para o jantar.
Ao invés de aceitar a nova divisão, os comensais começam uma guerra para impedir que mais um player requisite uma parte do mercado.
Justamente quando iniciávamos o processo de licenciamento junto à Agência Nacional do Petróleo — ANP —, apareceram denúncias infundadas sobre os mais diversos assuntos.
Tivemos denúncias com mais de 80 itens.
Todos eles, um a um, foram desmentidos com provas que, demonstravam de forma irrefutável a lisura e a correção que permearam a empresa desde o início da sua construção.
Correntes internas do órgão fiscalizador se pronunciavam claramente sobre o impedimento daquela ousadia, considerada inaceitável por alguns.
Entre maio e outubro de 2022, com todo o quadro contratado e treinado, passamos o período respondendo às denúncias, sempre na esperança de que pudéssemos ser vistoriados pela ANP.
Imagine o dispêndio de manter mais de 90 funcionários técnicos treinados, esperando o momento de iniciar a fabricação.
No dia 22 de outubro de 2022, recebemos a visita de nove inspetores da ANP, munidos de filmadoras e manuais, que passaram mais de oito horas fiscalizando nossa indústria e checando os documentos comprobatórios de todo o processo de construção.
Colocamos repetidores de Wi-Fi espalhados pelo parque industrial, o que possibilitou o acompanhamento de mais 19 auditores lotados na sede da ANP, no Rio de Janeiro.
No final do dia, ouvimos o chefe dos auditores dizer que aquela refinaria era uma pérola, acrescentando que nunca havia visto um trabalho tão bem-feito.
Ali, efetivamente, nasceu a SSOIL ENERGY, dando início a um processo inédito, assim como inédita foi a coragem dos nossos acionistas em enfrentar sérias batalhas para cumprir seu objetivo final.
Talvez decorram desses fatos aqui narrados a gratidão e a disposição da empresa em colaborar com as entidades que assistem à população carente de nossa região, que, desde a sua implantação, teve um lema:
“Ninguém é verdadeiramente feliz se as pessoas em seu entorno não forem felizes também.”